Sabrina Noivas 110 - Waiting For The Wedding

Eles esperaram pela noite de npcias... A noite que nunca chegou. Cinco anos mais tarde Sherry Boyd ainda mantinha a virgindade. Mas parecia que seu antigo noivo, Clint Graham, no. A "evidncia" tomava uma mamadeira no conforto dos braos fortes do belo xerife. E o irresistvel Clint pedia a ela, dentre todas as pessoas, que o ajudasse a cuidar do lindo beb que fora deixado a sua porta. Bem, o homem era ousado! Sherry trancafiara recordaes agridoces de Clint em uma caixa juntamente com o anel de noivado. E via-se prestes a encarar de novo a dor do passado. Pois l estava  porta da casa do homem que ela um dia amara, pegando a criana de seus braos e sentindo o corao disparar conforme nos velhos tempos...

Digitalizao e correo: Nina

Publicao original: 2000 . Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo 
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000

Srie Noivas Virgens (Virgin Brides)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Palmer, Diana	The Princess Bride
Sab.Noivas 069 - H.Texas 17.1 - Tudo Por Um Beijo	Mar-1998August, Elizabeth	The Bride's Second Thought
Sab.Noivas 090 - Razes Do Corao	Apr-1998Broadrick, Annette	Unforgettable Bride
Sabrina 1044 - Um Amor Para Sempre	May-1998Carey, Suzanne	Sweet Bride of Revenge
	Jun-1998Steffen, Sandra	The Bounty Hunter's Bride
	Jul-1998Ferrarella, Marie	Suddenly... Marriage
Sab.Noivas 092 - De Repente...Casados!	Aug-1998Paige, Laurie	The Guardian's Bride
Sab.Noivas 100 - Planos Para Um Casamento	Sep-1998Christenberry, Judy	The Nine-Month Bride
BD 724 - Aconteceu o Amor!	Oct-1998James, Arlene	A Bride to Honor
Sab.Noivas 093 -Preldio de Amor	Nov-1998Longford, Lindsay	A Kiss, a Kid and a Mistletoe Bride
Sab.Noivas 113 - Beijo Roubado	Dec-1998Palmer, Diana	Callaghan's Bride
Julia 1129 -  H.Texas 19 - Irmos Hart 03 - As Estaes Do Amor	Mar-1999James, Arlene	Glass Slipper Bride
	Jul-1999Grace, Carol	Married to the Sheik
BD 726 - Casada Com Um Sheik	Sep-1999Shields, Martha	The Princess and the Cowboy
Sab.Noivas 114 - A Princesa e o Caubi	Nov-1999Bagwell, Stella	The Bridal Bargain
BD 741.1 - Selado Com Um Beijo	Jan-2000Cassidy, Carla	Waiting for the Wedding
Sab.Noivas 110 - Meu Primeiro Amor	Feb-2000Clayton, Donna	His Wild Young Bride
Sab.Noivas 117 - Corao Selvagem	Apr-2000Colter, Cara	First Time, Forever
Julia PP 033 - Conto De Fada Existe	Aug-2000Grace, Carol	Fit for a Sheik
Julia 1131 - Sob Medida Para o Sheik
	Feb-2001Wallington, Vivienne	Claiming His Bride
Sab.Noivas 120 - Um Segredo Entre Ns	Apr-2001Bright, Laurey	Marrying Marcus
Sab.Noivas 139 - Eu Sei Que Vou Te Amar	Dec-2001Bright, Laurey	The Heiress Bride
Sab.Noivas 138 - Casamento de Princesa	Mar-2002Smith, Karen Rose	The Marriage Clause
	May-2002

         

        

























CAPITULO I

A ltima coisa que o xerife Clint Graham esperava encontrar ao abrir a porta de sua casa naquela manh de abril era um beb.
Mesmo assim, l estava o pacotinho adormecido, enrolado em um cobertor cor-de-rosa e descansando em uma cadeira adaptvel ao banco de um carro. A seu lado, uma pequena bolsa plstica.
Clint olhou ao redor. O sol acabava de nascer no horizonte, prometendo outro glorioso dia de primavera. A luz do alvorecer pintava de dourado as casas asseadas de sua rua.
Era a espcie de manh que o fazia lembrar-se do motivo de amar tanto a cidade de Armordale, Kansas.
Observou a residncia  esquerda, e ento a da direita. Conhecia os vizinhos de ambos os lados e sabia que, na certa, no eram os responsveis pela surpresa. Analisou a paisagem circundante, os arbustos e rvores, procurando pela pessoa que deixara a criana.
Ningum. Ningum por perto, nenhum carro estacionado na rua, nenhum estranho tentando se esconder. Nada parecia diferente, alm da existncia de um nen em sua varanda!
Sem saber o que fazer, Clint, com todo o cuidado, pegou a cadeirinha e carregou o beb at a cozinha. Colocou o assento sobre a mesa e se ps a analisar o rosto pequenino e angelical.
Plidas mechas de cabelo loiro adornavam o topo da cabea. As bochechas eram redondas; os lbios rosados tremiam de leve a cada respirar. No fazia ideia de quem era, qual sua idade ou o motivo de estar ali.
Nesse momento, notou a ponta branca de um pedao de papel dobrado colocado no cobertor. Com cuidado, pegou-o, no querendo acordar a criana.
Abriu o bilhete e franziu a testa ao ler:
"Nunca lhe pedi nada desde que Kathryn nasceu. Nem que fosse um marido para mim ou um pai para ela, mas agora preciso de sua ajuda. Estou em perigo e devo me ausentar por uma semana ou duas. Por favor, mantenha-a segura. Quando tudo voltar ao normal, virei para busc-la. A, eu e Kathryn tornaremos a desaparecer de seu caminho".
O corao de Clint disparou. A mensagem no estava assinada. Seria possvel?
Por um breve instante, pensamentos absurdos lhe ocorreram.
No, claro que no. Teria ouvido algum comentrio. Algum haveria lhe contado. De alguma maneira saberia.
Olhou de novo para a carta. Fora escrita em uma simples folha de caderno. No havia pistas de sua autora. Deixou-a de lado, com o franzir de testa mais intenso.
O bilhete dizia que havia perigo. Ser que a me deixara o nen ali porque ele era xerife? Antes que tivesse tempo de absorver direito a situao, houve uma batida  porta.
Apressou-se a atender, temendo que o som acordasse a menina. Abriu a porta e levou um dedo aos lbios.
^ O que aconteceu?  Andy Lipkin sussurrou. Segurava duas xcaras de caf fumegante.
Tornara-se uma rotina que os dois homens fossem juntos para a delegacia. Andy comprava o caf pela manh, e Clint, os refrigerantes na volta para casa.
	Siga-me e fique em silncio.  Clint fez Andy entrar.
Andy parou ao batente e espiou o beb no centro da mesa. Na ponta dos ps, o homem grandalho e musculoso aproximou-se.
	O que  isso?  Pousou as duas xcaras ao lado do assento do nen.
	 A mim parece um beb  Clint respondeu com frieza. --- Foi  deixada  minha soleira pouco tempo atrs.
Estendeu a Andy a mensagem que acompanhara o "pacotinho surpresa".
O policial leu a nota e devolveu-a a Clint.
	Sabe quem ela ?
	Nem imagino!
	E ento, o que vai fazer, xerife?
	No sei.
Olhou pensativo para a criana adormecida e depois para Andy. Nem mesmo queria pensar no que aconteceria quando a menina acordasse. Suspirou.
	V at o escritrio, Andy, e eu verei o que posso fazer por aqui. Tentarei aparecer por volta do meio-dia.
Andy pegou uma das xcaras e, juntos, ele e Clint saram p ante p da cozinha.
	Voc telefonar para o Servio Social de Kansas City?
Clint ergueu uma sobrancelha, pensando naquela doce criatura sendo engolida pelo sistema. Era possvel que, se deixasse Kathryn a cuidado do Servio Social, a me da menina nunca mais conseguisse reav-la. At que descobrisse a identidade da mulher e das circunstncias do abandono temporrio, detestaria fazer algo to definitivo.
	No, por enquanto, Andy. Gostaria de tentar descobrir o que est acontecendo antes de seguir a rotina do Servio Social. Armordale  um lugar minsculo, e as pessoas costumam saber da vida umas das outras. Talvez algum tenha conhecimento do que est ocorrendo com este beb e sua me.
Andy assentiu.
	Est bem, mas eu vou sair daqui.
Girou a maaneta e virou-se para Clint, sorrindo.
	Se algum telefonar e precisar de voc, devo dizer que est trabalhando como bab, hoje?
	Lgico, mas tambm acrescente que voc estar perdendo seu distintivo. E agora v!  Clint riu.  Eu telefonarei para voc mais tarde.
Aps a partida de Andy, Clint voltou  cozinha e mais uma vez ficou a contemplar o beb.
Quem era ela? Kathryn de qu? Onde estava sua me? Que espcie de perigo a ameaava, a ponto de deixar a filha diante de sua residncia?
No poderia pajear a garota durante uma semana ou duas. E se no pretendia deixar a linda Kathryn aos cuidados do Servio Social, precisava tomar outras providncias.
"Sherry..." O nome lhe ocorreu e trouxe enorme alvio. Ela ajudaria. Afinal, era sua melhor amiga.
Sem dar-se a oportunidade de ponderar a respeito, pegou o fone e discou para ela.
Sherry atendeu  terceira chamada, a voz rouca de sono.
	Acordei voc?
	No, Clint. O telefone o fez. Que horas so?
Ele ouviu o roar de lenis, e ento um grito de ultraje:
	Clint Graham, como ousa me ligar s sete horas?! Sabe que no trabalho pela manh!
	E voc sabe que eu no telefonaria se no fosse muito importante.
Clint tornou a escutar o som de cobertas sendo mexidas e, sem ordem alguma, sua mente criou a imagem de Sherry na cama.
Os cabelos loiros estariam em desalinho e caindo sobre os ombros. As faces enrubescidas. E os belos olhos verdes, sonolentos e com expresso sensual.
	Clint?  A voz continha um toque de nervosismo, deixando-o saber que provavelmente dissera seu nome mais de uma vez.
Ele balanou de leve a cabea. De onde viera aquele devaneio? Nunca chegou a ver Sherry no leito. Deixara de ter tais fantasias muito tempo atrs.
	Estou aqui.
	Eu lhe perguntei o que  to importante assim que no podia aguardar at um horrio razovel.
	Querida, para a maior parte das pessoas, esse  um horrio razovel.
	Se no me contar nos prximos dez segundos o motivo do telefonema, vou desligar e voltar a dormir.
Clint percebeu que ela no estava brincando.
	 que... bem, estou enfrentando uma situao... digamos... estranha! E preciso de seu auxlio. Pode vir para c?
	Clint, voc est bem? No pegou aquele terrvel resfriado, no  mesmo?
	Estou bem. No fiquei doente e detesto falar de assuntos importantes pelo telefone. Venha para c, Sherry. Voc ainda no conhece minha nova casa. Eu lhe farei um maravilhoso desjejum, com direito a biscoitos e pat.
	Sinto cheiro de problemas... A ltima vez que preparou biscoitos com pat para mim acabou pedindo para eu cuidar de "algumas" roupas sujas.
Clint gargalhou.
	Eu estava doente, menina m! E nem percebi quantas haviam acumulado. Juro que a questo de hoje no envolve trabalho pesado.
	Est bem. D-me meia hora e estarei a.  E desligou.
Clint suspirou, aliviado. Sherry poderia ajud-lo a decidir o que fazer.
Aprumou-se, pensando na jovem com quem acabara de falar.
Era estranho. Cinco anos atrs, acreditara que Sherry era a mulher com a qual passaria o resto de sua vida. Achou que se casariam e teriam uma famlia, vivendo felizes para sempre.
Lamentava que os planos no tivessem funcionado. Mais ainda, que o amor tivesse sido substitudo por uma boa amizade.
Sherry tinha muito pouco da mulher por quem ele se apaixonou, anos atrs. Sofrera uma transformao dramtica, e isso comeara quando ela descobriu que nunca poderia gerar filhos.
Clint franziu a testa e fitou o beb. Talvez no tivesse sido uma boa ideia ligar para Sherry.
Como que concordando, Kathryn abriu os olhos e o encarou. Ento, seu lbio inferior tremeu, o rosto tornou-se vermelho, e ela comeou a chorar.
Sherry Boyd tomou um banho rpido, vestiu-se e foi de carro para a nova residncia de Clint. Duas semanas antes, ele se mudara do apartamento para uma simptica casa com trs dormitrios na rua principal.
Enquanto dirigia, tentava imaginar qual situao faria com que Clint precisasse de sua presena, mas nada de concreto lhe ocorreu.
Virou  esquerda e suprimiu um bocejo com a mo. Trabalhara at as trs da madrugada, e seu corpo reclamava do pouco sono. Os olhos ardiam, os ps doam das longas horas como garonete, e uma leve dor de cabea comeava a fazer suas tmporas latejarem.
	E melhor que o motivo seja bom, xerife Graham...
Ela e Clint moraram no mesmo edifcio no decorrer dos ltimos quatro anos, at duas semanas atrs, quando aquela casa foi colocada  venda. Em poucos dias, Clint comprou-a e arranjou a mudana.
Era um lugar agradvel, pintado de branco e com pedras pretas adornando a janela. Flores da primavera j desabrochavam, acrescentando cores vibrantes a contrastar com as paredes alvas.
Sherry ouviu o choro de um bebe no instante em que abriu a porta do automvel. De imediato, ficou tensa e sentiu um arrepio pelo corpo. Jamais ouviria um filho chorando por ela.
O barulho no podia estar vindo da casa de Clint. Era apenas uma pea pregada pelo vento. Ou um dos vizinhos tinha uma criana pequena.
Alcanou a porta frontal e bateu. O choro estava mais alto do que antes.
	Clint!  gritou.
Como no houve resposta imediata, resolveu entrar. Clint apareceu ao batente da cozinha no mesmo instante, com um nen soluante nos braos.
	Graas a Deus voc est aqui!
Durante alguns segundos, Sherry s conseguiu encar-lo, a mente tentando buscar algum sentido na cena.
Os cabelos escuros de Clint estavam despenteados, e a parte dianteira da camisa, mida com o que, suspeitava ela, era baba ou as lgrimas da criana.
Era difcil ver a aparncia do anjinho. As faces estavam rubras, no momento, as feies desalinhadas por conta de sua infelicidade.
	O que est acontecendo, Clint?
Sherry permanecia imvel, recusando-se a estender os braos para pegar o beb, embora soubesse que era o que Clint desejava.
No decorrer dos ltimos cinco anos, Sherry fez escolhas conscientes que manteriam-na distante de crianas. Sara do emprego de professora de primeiro grau e agora trabalhava como garonete no bar mais popular da cidade.
Escolhia amigas com cuidado, em geral pessoas que no tinham filhos ou cujas crianas j eram mais crescidas.
	No consigo fazer com que a nen pare de chorar, Sherry.  Balanava Kathryn nos braos, para cima e para baixo.
O movimento deixava Sherry enjoada. Pressentia que a criana tambm no aprovava essa ttica.
	Est molhado?  Sherry perguntou, ainda no fazendo o menor movimento.
	No sei. Eu estou. Ela deve estar tambm.
Sherry no pde mais aguentar. A despeito de seus princpios, moveu-se para onde Clint estava e apanhou o pequeno ser.
A garotinha se debateu contra o peito de Sherry at aconchegar-se. Logo os soluos foram rareando, como se Kathryn se sentisse confortada pelos braos femininos.
Sherry lutava contra o impulso de gritar com Clint, liberando a raiva que sentia. Fora trada! Como ousara telefonar pedindo que o ajudasse a cuidar de um nen?!
Clint sabia melhor do que ningum do tormento que enfrentara quando descobriu que no poderia ficar grvida. Jamais carregaria um beb no ventre, nunca teria uma criana sua. Ento, como teve coragem de cham-la para ficar perto de um nen?
	Venha para a cozinha, Sherry. Acho que h fraldas e algumas coisas por l.
	Vai me dizer o que est acontecendo ou no? Quem  esta menina?  Sherry indagou ao segui-lo para a cozinha banhada pela luz matinal.
	O nome dela  Kathryn, e  tudo o que sei. Se voc cuidar dela por alguns minutos, comearei a preparar os biscoitos e o pat.
Sherry acomodou-se  mesa.
	No estou com fome, Clint. O que quer dizer com " tudo o que sei"?
	Encontrei-a em minha varanda, h pouco. Ali naquela sacola deve haver as coisas das quais o beb precisar.
Sherry nem se mexeu.
	Como assim "encontrei-a h pouco"?  Sentia-se ridcula repetindo as palavras de Clint no esforo por obter respostas.
Sherry olhou para Kathryn e deparou com os olhos mais azuis e cheios de confiana que j viu. Seu peito se apertou, e ela se aprumou em defesa.
No queria estar ali. No queria segurar aquela doce criana no colo, pois apenas serviria para lembr-la de sua perda e do vazio angustiante dos sonhos despedaados.
Clint passou a mo pelos cabelos, tenso.
	Quando abri a porta esta manh, l estava ela. Acomodada em uma cadeirinha para carro e com uma sacola com fraldas a seu lado. Tinha um bilhete metido no cobertor.
O xerife fez um gesto indicando o pedao de papel sobre o tampo. Sherry ajeitou o beb e pegou a mensagem. Leu rpido o contedo, as palavras criando uma dor estranha e nova em seu ntimo.
	O beb  seu, Clint?
A questo pairou no ar entre os dois.
	No sei  disse Clint, por fim.  Nem ao menos pensei na possibilidade.
	Pois  melhor pensar agora  Sherry aconselhou, lutando contra a tristeza que o bilhete evocara.
Queria que Clint tivesse filhos, por isso rompera o noivado, tanto tempo atrs.
	E difcil saber, Sherry, j que desconheo a idade de Kathryn.
Sherry ergueu a menina, apoiando-a em um brao e, ao fazer isso, sentiu a fralda mida. Levantou-se e colocou Kathryn de costas na mesa. Pegou a sacola e tirou uma fralda.
	Eu diria que ela tem mais ou menos seis meses.  Enquanto Sherry lutava para trocar Kathryn, a garotinha ria e dava chutes.  E ento, quem voc namorava mais ou menos quinze meses atrs?
Clint caminhou da pia para a janela. Durante um longo momento, ficou olhando para fora, os ombros largos bloqueando a entrada do sol. Ento, virou-se.
	S pode ter sido Candy.
Sherry fez uma careta. Candy, a divorciada sensual de Kansas City. Sherry detestou a mulher desde o instante em que a viu pela primeira vez. Era atraente e exibida.
	A carta diz que a me est em perigo. H uma pista sobre o problema que Candy est enfrentando: deve ter sido ameaada por alguma esposa cujo marido tem um caso com ela.
Clint esboou um sorriso.
	Voc nunca gostou de Candy  observou, matreiro.
	Essa deve ser a frase do ano.. Candy era uma devo radora de homens, e voc  o prato principal.
Sherry fechou a boca, no querendo dizer nada mais. A mulher sobre a qual falava era, decerto, a me da criana de Clint.
	Por enquanto, o que temos  mera especulao, Sherry.
A menina fora colocada no cho e ameaava engatinhar.
	 possvel que a me tenha optado por deix-la aqui porque sou xerife, e no por eu estar relacionado de alguma maneira.
	Sim, e h a possibilidade de que amanh eu seja votada prefeita desta cidade  Sherry ironizou.
Ela se levantou, precisando escapar daquela conversa e da garota, que se sentara e olhava para cima, estudando-a, como se Sherry fosse sua salvao.
	Kathryn parou de chorar, e est trocada. Parece que voltou a ficar sozinho, xerife papai.  Deu-lhe as costas, dirigindo-se  sada.
	Sherry... espere!  A entonao dele continha um toque de pnico.  Eu quero lhe pedir um favor.
	No. Seja o que for que esteja prestes a pedir, a resposta  "no". Pode preparar biscoitos com pat para mim todas as manhs durante o resto de minha vida, que a resposta continuar sendo "no".
	Sherry, por favor, oua-me.
Mas ela no parou. Abriu a porta da sala e caminhou apressada para o carro. Pressentia o que Clint desejava, e no haveria como auxili-lo. De jeito nenhum.
Acabava de acomodar-se ao volante quando Clint saiu correndo da casa, com Kathryn chorando. Disparou para a janela aberta do automvel.
	Sherry, preciso de voc. Necessito de algum que me ajude com ela at eu descobrir o que est acontecendo. Peo-lhe que voc tire folga do trabalho por uns dias, fique aqui e me ajude.
	Est louco!  exclamou, tentando ignorar o apelo nos lindos olhos azuis do xerife.  O que sei a respeito de cuidar de um beb?
	Voc soube trocar uma fralda. Imagino que possa descobrir como aliment-la. O que mais tem de saber?
Sherry ficou calada.
	Pagarei pelo servio... Qualquer que seja sua mdia de ganhos no bar, lhe darei o dobro. Sherry, estou desesperado! No posso ficar em casa durante os prximos dias e deixar esta cidade sem um xerife.
Sherry queria lhe dizer que isso era problema dele. No se envolveria. Gostaria de escapar dali. Mas no o fez. Suspirou e massageou o centro da testa. A enxaqueca piorava.
	Sherry...  Clint inclinou-se e ficou to prximo que ela pde ver os pontos que tornavam aquelas ris maravilhosas.
Tambm conseguiu sentir o perfume familiar de sua colnia to agradvel.
	Sherry, por favor! Se voc se importa um pouco comigo, ajude-me.  Ele fez um carinho suave na cabea de Kathryn.
	Se... Kathryn for minha... Olhe, voc  a nica pessoa em quem eu confiaria para cuidar dela.
Algo naquele olhar tocou-a em lugares de seu corao que Sherry achou que nem mais existiam.
Um instante contemplando Clint a fez recordar-se dos muitos momentos de um passado distante, repleto de sonhos que jamais se realizariam.
Sherry entendia o que Clint tentava fazer. Pedia no apenas pela amizade, mas tambm pelo amor que um dia sentiram um pelo outro.
Naquele momento, Sherry pensou que poderia detest-lo apenas um pouco mais por saber como manipular suas emoes.
Clint estendeu a mo e segurou-lhe o pulso. Os dedos eram quentes contra sua pele.
	Por favor, Sherry. Nunca saber o quanto isso significa para mim. Nunca lhe pedi algo importante antes.
Ela se soltou, a raiva retornando para sustentar sua deciso original.
	E voc, dentre todas as pessoas, devia ter conscincia do que me pede. Voc, mais do que ningum, deveria saber que no posso fazer isso! Perdoe-me.
E Sherry ps o veculo em movimento.
CAPITULO II

Clint ficou contemplando o carro at que desaparecesse de vista. Sentia-se culpado e terrivelmente s.
Os gritos de Kathryn pareciam sirenes, ensurdecendo-o. Olhou para o beb. Mais uma vez, o rosto pequenino estava vermelho, os olhinhos fechados, enquanto o barulho altssimo era emitido.
Como um ser daquele tamanho podia ser to ruidoso?
Os berros, enfim, venceram sua inrcia. Clint levou Kathryn de volta para a casa, tentando evitar lembrar-se da expresso de Sherry ao afastar-se.
Uma mamadeira! Talvez Kathryn estivesse com fome. Colocou-a na cadeirinha e procurou por algo na sacola.
 Ah!  exclamou, triunfante, ao tirar uma mamadeira plstica vazia. - Leite. Todos os bebs tomam leite, certo?
Colocou leite na mamadeira e franziu a testa. Quente ou frio? Nem fazia ideia...
Colocou a mamadeira no microondas por alguns segundos, sentou-se e mostrou-a a Kathryn.
O choro cessou como em um passe de mgica. Os olhos azuis da menina se arregalaram, e seus dedos abriam e fechavam como se pedindo que colocasse a mamadeira em sua boca. Clint fez isso e ficou observando, muito contente, a menina se alimentando.
Sem os gritos, viu-se  merc de seu remorso em relao a Sherry. Fora uma insensibilidade sua telefonar para ela. Uma tolice no imaginar a tristeza que lhe infligiria. Mas imaginara que ela j havia superado o trauma de no poder gerar.
Suspirou, lembrando-se da palidez dela.
Mas o que mais poderia ter feito? No namorava ningum fazia um ms, nem sequer tinha familiares a quem pedir ajuda.
Fora um instinto natural entrar em contato com Sherry. Telefonou para ela quando ficou resfriado. E contou com sua doce presena quando seu melhor amigo faleceu.
No decorrer dos ltjmos cinco anos, Sherry vinha lhe oferecendo apoio para superar cada crise que a vida colocava em seu caminho. Fora natural que tambm recorresse a ela naquela complicao em particular.
Sherry voltaria. E, a despeito dos sentimentos de culpa e das palavras que ouviu minutos atrs, Clint sorriu, porque sabia que ela retornaria. Sherry nunca o decepcionou.
"O beb  seu?" A indagao dela retornou para assombr-lo. Rejeitara a possibilidade quando viu o beb na varanda. Agora, entretanto, via-se obrigado a pensar no assunto.
Estudou a garotinha, que o encarava. Seria sua filha? Ser que Candy deu  luz e nada lhe contou?
No podia imaginar uma mulher fazendo algo assim, tendo um filho sem informar ao pai. Mas Candy no era previsvel. E, alm do mais, quem compreendia as foras que moviam as mulheres?
Tocou em uma bochecha gordinha com um dedo, experimentando uma emoo diferente.
 Voc  minha?  perguntou, com suavidade.
A nica resposta foi o som delicado do leite sendo sugado e um breve baixar de pestanas.
Kathryn mamou quase todo o contedo da mamadeira; em seguida, adormeceu. Durante alguns minutos, Clint ficou a apreci-la, tentando ver se a marca de sua paternidade aparecia nos traos dela.
Kathryn tinha ris azuis, conforme as suas. Mas os cabelos de Clint eram negros, e o de Kathryn, de um loiro plido. Sabia, entretanto, que tambm nascera loiro.
Bem, era impossvel saber se Kathryn se parecia com ele. No momento, era apenas um beb feliz.
Vendo-a dormir profundamente, Clint levantou-se e foi para o quarto de hspedes.
Nada fazia com aquele aposento desde a mudana, duas semanas antes. A cama estava sem lenol, a penteadeira e a velha cadeira de balano, empoeiradas.
Tinha certeza de que Sherry no o decepcionaria. Por isso, colocou lenis limpos na cama e tirou o p das poucas peas de moblia.
Acabava de ajeitar o dormitrio, quando ouviu a campainha. Encontrou Sherry na varanda, com uma maleta na mo.
	Trs dias  disse ela, ao entrar. Sua fisionomia continha um misto de rebeldia com determinao.  E tudo o que lhe darei. Trs dias, e ento voc ter de arrumar outra soluo.
	Sherry...
Ela ergueu a mo.
	No me agradea. No estou feliz com esta situao, mas no posso suportar a ideia de esse beb ser entregue ao Servio Social. Ou, pior, sendo assistida por voc e aquele seu ajudante.
Clint assentiu, sabendo que era melhor no dizer nada. Estava apenas grato por Sherry ter vindo.
	Eu lhe mostrarei suas acomodaes.  Ele fez um gesto para que Sherry o seguisse pelo corredor.
Abriu a porta, e Sherry entrou. Aspirou o ar e fitou-o, aborrecida.
	Est com cheiro de lustra-mveis. Acabou de limp-lo! Sabia que eu ia voltar!
Ele sorriu, tmido.
	Eu tinha esperana...
Percebeu que ela ficava mais brava, os olhos verdes cintilando em advertncia.
Sherry colocou a mala no colcho.
	Trs dias, Clint. Juro que ser s isso. Encontre aquela assanhada da Candy e descubra o que est acontecendo!
	Sem problemas.
Caminharam juntos de volta  cozinha. Sherry mal olhou para a criana adormecida.
	Eu lhe dei leite. Parece que uma mamadeira a satisfez.
 Clint pegou a chave do carro.  Tenho de ir trabalhar. Andy est cuidando de tudo para mim at agora, e quem sabe as confuses que criou?
Esperou que Sherry sorrisse, mas isso no aconteceu. Clint respirou fundo, imaginando por quanto tempo seria punido.
	Voltarei para o jantar mais ou menos s seis horas. 
No trajeto para a delegacia, o xerife de Armordale ainda pensava em Sherry e no beb.
Sendo honesto consigo mesmo, admitia que nunca compreendera a profundidade da dor de Sherry quando ela descobriu que um caso severo de endometriose deixou-a incapaz de engravidar.
De qualquer maneira, isso fora cinco anos atrs. Imaginou que j tivesse superado essa frustrao. Mas seu jeito de olhar para Kathryn testemunhou o contrrio.
Clint nunca imaginou-se pai. Anos atrs, quando ainda noivo de Sherry, os dois chegaram a_ conversar sobre o assunto e fazer planos para o futuro. Mas no era algo de suma importncia para ele, no se tratava de uma necessidade sua.
Quando Sherry rompeu o compromisso, Clint tentou convenc-la de que no se importava em ter filhos. Ficaria satisfeito apenas tendo-a consigo.
Mas isso no bastou para Sherry, que insistira dizendo que seus sentimentos haviam mudado e no mais o amava. Clint no fora o bastante para ela.
Afastou as divagaes provenientes de uma poca distante, que quase nunca retornava para assombr-lo. Por sorte, tinham conseguido deixar de lado a paixo para construir aquela amizade to especial. S isso importava.
Estacionou diante do pequeno prdio que era seu "lar longe do lar". Ao descer do veculo, fez uma breve orao.
Pediu aos cus que no tivesse estragado tudo com Sherry ao lhe pedir para cuidar de Kathryn.
Sherry estava  janela da cozinha, de costas para a criana adormecida. Tentava entender por que concordara em ajudar Clint.
Quando sara da casa dele em disparada, estivera determinada a no retornar. Decidira que daquela vez Clint estava pedindo demais.
Fora para o apartamento e tentara, desesperada, esquecer a garotinha, suas bochechas rosadas, os olhinhos azuis que a fitaram com tanta confiana. Ou a maneira natural como a pequenina aconchegara-se em seu colo.
Antes que percebesse o que fazia, j fechava a mala e telefonava para o trabalho, pedindo uma semana de folga.
Loucura.
Loucura absoluta.
Virou-se da vidraa e fitou o beb. Os cabelos loiros adornavam-lhe a cabea, e os lbios estavam curvados em um sorriso, como se o sonho estivesse sendo agradvel.
Sherry trocaria suas fraldas, alimentaria Kathryn, mas recusava-se a permitir que seu corao se envolvesse. Era a nica maneira de suportar os prximos dias. Tinha de manter uma barreira alta e impenetrvel para proteger seu ntimo.
Franziu a testa, lembrando-se do comentrio de Clint ao partir. Falou que estaria de volta para o jantar s seis horas.
O que ele achava? Que iria ser uma esposa pelos prximos trs dias?
Se supunha que ela cozinharia e limparia a casa alm de cuidar da menina, estava muito enganado!
O dia passou rpido. Kathryn dormiu at quase meio-dia, quando Sherry alimentou-a com outra mamadeira, pousou-a no cho da saa de estar em um cobertor e deu-lhe algumas colheres plsticas e bolinhas para brincar. Entretanto, a garota desprezou os brinquedos improvisados, preferindo os dedos de seus ps.
Sherry tinha plena conscincia de que pensava na criana como "o beb" em vez de Kathryn. Mantinha-a a distncia, recusando-se a se apaixonar por aquela belezinha.
Kathryn era bem comportada. Ocupava-se sozinha, brincando primeiro com os artelhos, depois tentando capturar os raios de sol que entravam pela janela.
Quando tornou a adormecer, Sherry cobriu-a com um cobertor leve e ajeitou-lhe as mechas ralas.
Seria filha de Clint? Seu peito doa  hiptese. Houve tempo em que sonhou em carregar no ventre uma criana dele. poca em que a possibilidade encheu-a de alegria e deslumbramento.
Clint disse que era possvel que Kathryn fosse sua, o que significava que dormira com Candy.
Franziu a testa, pensando na razo de esse fato incomod-la tanto. Muito tempo atrs, deixara de fantasiar a respeito de fazer amor com Clint. Ou com qualquer um.
Tinha em mente que devia ser a virgem viva mais velha de Armordale. Vinte e oito anos de idade, e nunca se entregara aos deleites da cama.
Recebera ofertas para deixar de ocupar esse posto. Cada noite, no mnimo um caubi meio bbado professava seu infinito amor por ela e oferecia-se, para iev-la para casa e lhe mostrar prazeres alm de sua imaginao. Todavia, a imaginao de Sherry era boa demais.
Talvez um dia conhecesse um homem mais velho e divorciado, algum que j tivesse constitudo famlia e no desejasse ser pai de novo. Enquanto isso, no acalentaria grandes esperanas.
Por volta das cinco horas, Kathryn ficou agitada, e Sherry presumiu que devia estar com fome. Acomodou-a na cadeira infantil para carro e inspecionou a geladeira.
Viu-se, ento, diante de uma boa mostra dos hbitos alimentares de um solteiro: leite, mostarda e um pacote com hambrgueres. Sabia que Clint fazia a maior parte das refeies no Armordale Caf, mas, sem dvida, planejara algo com hambrgueres para o jantar.
Otimo. Pois que ficasse a ss com seu hambrguer!
Encontrou uma lata de atum no armrio, outra de ervilhas, e uma maior, com pssegos em calda. Preparou um sanduche de atum para si. Em seguida, amassou as ervilhas e cortou pedaos de pssego em minsculas partes para Kathryn. E fez uma anotao mental para pedir a Clint que comprasse cereais e comida para beb.
Kathryn abria a boca como um filhote de passarinho, aguardando a refeio. Tentava ajudar Sherry, agarrando a colher e rindo quando conseguia tocar no metal.
	No seja to adorvel...  Sherry pediu, achando o riso da pequenina contagiante.
Kathryn batia os ps e sorria, mostrando o primeiro dente.
Sherry sentiu-se grata quando o jantar terminou. Limpou o rostinho lindo, arrumou a cozinha e colocou o beb de volta no cobertor pousado no centro da sala de estar.
	Ficarei aqui apenas durante alguns dias  falou para a menina, que ficou sentada a encar-la com um amplo sorriso.
Sherry virou a cabea para o lado para no ver a doce imagem.
	No quero me importar com voc  sussurrou, como se a criana pudesse compreend-la e ficar magoada.
Kathryn gargalhou, parecendo desejar chamar sua ateno. Sherry sentiu-se  beira das lgrimas.
	Se eu permitir, voc partir meu corao. No posso deixar isso acontecer.
Kathryn riu de novo, como se Sherry tivesse acabado de dizer algo muitssimo tolo.
O som distante da porta de um carro sendo batida fez Sherry levantar-se do sof e ir at a varanda. Suspirou aliviada ao avistar o automvel de Clint. E ficou observando-o abrir o porta-malas.
O sol de fim de tarde brincava nos cabelos negros. Clint era um dos poucos homens que, pelo julgamento de Sherry, ficava bem usando farda. A cala comprida marrom-escura adornava as pernas longas e os quadris estreitos como se cortada por um alfaiate primoroso. A camisa cobria os ombros largos, e ajustou-se de leve quando ele se inclinou para retirar o que aparentava ser partes de um bero.
Sherry deveria sair para ajud-lo, mas ainda nutria algum ressentimento por Clint t-la envolvido naquela situao. Ele manipulara a amizade e o carinho genuno que sentia, fazendo-a estar onde no queria estar.
No entanto, sua irritao no impediu que abrisse a porta para o amigo.
	Onde conseguiu isso?  perguntou, vendo-o colocar as partes de madeira e o colcho infantil na sala.
	Etta Mae me emprestou.  Apoiou a madeira contra a parede e sorriu para Kathryn.  Tenho mais coisas l. J volto.
Mais uma vez, Sherry o viu disparar para o veculo, de onde tirou diversas sacolas plsticas.
Ao v-lo retornar  casa, Sherry ficou imaginando o que o mantinha solteiro durante todos aqueles anos. Era um rapaz atraente, com feies perfeitas e olhos azuis que prometiam inteligncia e bom-humor.
Clint era considerado o melhor partido de Armordale, embora no costumasse namorar e nunca tivesse chegado mais prximo de se casar do que quando esteve noivo dela.
	Etta Mae fez uma lista de coisas de que Kathryn precisar.  Clint colocou as sacolas no cho.
Etta Mae era a mulher de cinquenta e seis anos de idade que trabalhava como despachante no escritrio do xerife. Era uma combinao de companheira de trabalho, me e confidente para aqueles com quem trabalhava, ignorando cdigos e procedimentos com a mesma confiana com que oferecia consolo e conselhos.
	Cereal de arroz, comida para beb, mais fraldas, roupinhas...  Clint foi pondo cada item a seu lado, no piso.
 Chocalhos, lenis.:
	No me parece que a estada ser de duas semanas.
Clint aprumou-se e deu de ombros.
	Bebs requerem muitas coisas.
Por fim, o xerife apanhou um urso de pelcia branca com uma brilhante gravata borboleta cor-de-rosa.
	Ah, sim, isso sem dvida  primordial!
Clint voltou a dar de ombros e sorriu.
	No pude resistir.  Os olhos azuis cintilavam de prazer ao colocar o urso prximo de Kathryn.
bvio que no pde resistir, pensou Sherry. Todo pai devia comprar o primeiro urso de pelcia para a filha...
	J jantei e alimentei a menina, Clint. A fralda acabou de ser trocada, por isso ela no precisar de nada durante algum tempo. J que chegou, irei desfazer a mala e me instalar no quarto de hspedes.
Clint fitou-a com surpresa, franzindo a testa.
	J comeu? Achei que talvez ns... voc sabe, jantaramos juntos.
	No pode me enganar, Clint Graham.  Sherry apanhou as coisas de beb que ele trouxera.  Presumiu que voltaria para casa para saborear uma refeio deliciosa, que teria me escravizado durante toda a tarde. Sempre desconfiei que houvesse um chauvinismo latente em voc.
Ele riu e ergueu as mos.
	Est bem, confesso. Tive mesmo uma pequena fantasia a respeito de chegar hoje e sentir o cheiro celestial de um magnfico prato. Pelo que me recordo, voc costumava fazer uma excelente caarola com hambrguer.
	Isso foi h muito tempo. No gosto mais de cozinhar.
Sherry levou o urso de pelcia e outros itens para a cozinha, consciente de que Clint a seguia.
	Estou aqui para cuidar do beb enquanto voc trabalha.  Guardou a comida de Kathryn no armrio.  E no para cuidar de voc.
	Sei disso. Desculpe-me. Aprecio muito o que est fa zendo por mim... por Kathryn.
Clint disse o nome do beb de uma maneira estranha, como se no apenas tivesse aceitado a possibilidade de que fosse seu, mas tambm considerasse isso provvel.
Kathryn comeou a chorar na sala de estar.
	Estou de folga, Clint. Estarei em meus aposentos, se precisar de algo.
Sem esperar resposta, ela deixou a cozinha, tomou o corredor e entrou no quarto de hspedes. Fechou a porta e apoiou-se contra a madeira por um instante, atordoada com emoes conflitantes.
Cama de beb e comida para beb. Chocalhos e urso de pelcia. Eram coisas que havia deixado para trs, desejos que pertenceram a outra mulher, uma vida toda anterior.
Resolveu arrumar seus pertences.
No era culpa de Clint, uma voz interna argumentou. Nem de Kathryn. Nenhum dos dois criara a situao, embora Sherry, de alguma maneira, punisse a ambos desde o instante em que, com relutncia, aceitara ajudar o xerife.
Terminou de tirar da mala seus artigos de toalete e sentou-se na beirada do leito.
O beb de Clint... Era tudo o que tinha desejado para ele. E o motivo de ter rompido o noivado, anos antes. Quis que Clint tivesse tudo o que ela jamais teria... Filhos, por exemplo.
Se Kathryn pertencesse a Candy, ento o que teria dado nela para deixar a filha diante de uma casa sem nada alm de um bilhete vago?
Claro, no caso de Candy as circunstncias "perigosas" poderiam ir desde uma esposa ciumenta em seu encalo at o encanto de um cruzeiro no Caribe, onde no havia lugar para uma criana pequena. -
Qualquer que fosse o caso, de novo levava ao fato de que aquilo no era culpa de Clint. Quando ele pediu sua ajuda, Sherry teve a opo de d-la ou no. Escolhera estar ali, mas at o momento agia de maneira deplorvel.
Levantou-se, decidida a pedir desculpas. Antes que pudesse alcanar a maaneta para deixar o dormitrio, entretanto, ouviu uma batida.
	Lamento incomod-la.  Clint entrou. Trocara o uniforme por jeans e camiseta azul-marinho.  Poderia me ajudar a montar o bero? Seria mais fcil a dois.
Ele segurava uma chave de fenda e alguns parafusos.
	Claro. Onde vai coloc-lo?
	Bem... acho que em meu quarto. Se voc pegar Kathryn, levarei as peas.
	Est bem  Sherry concordou.
Caminharam lado a lado at a sala de estar.
Sherry pegou a menina no colo e aspirou a fragrncia infantil. O cheiro criava um misto de alegria com tormento dentro dela.
O grande aposento de Clint era um estdio de masculinidade. Uma colcha azul adornava a cama gigantesca, e um armrio de madeira escura tomava quase toda a extenso de uma das paredes.
Pinturas de belos cenrios decoravam outra parede. Um pato de madeira com um buraco nas costas para servir de cofre de moedas fora colocado sobre a cmoda em meio a uma variedade de vidros de perfume.
Clint levou o bero desmontado para o espao vazio defronte  nica janela. Sherry pousou Kathryn no centro do colcho, onde a menina ficou emitindo sons desconexos, mas indicando que estava satisfeita por mais uma vez ter encontrado os dedos dos ps.
	Clint, perdoe-me se fui indelicada.
Ele esboou um lindo sorriso, mostrando algumas rugas atraentes ao redor dos olhos.
	Quem pede no pode ser rigoroso em suas escolhas.
Prefiro ter uma Sherry rabugenta a no ter Sherry alguma.
Seu sorriso esmoreceu, e Clint cobriu a mo dela com a sua. Sherry sempre adorou aquelas mos, grandes, fortes e capazes.
	Estou muito grato, querida. Falei srio esta manh, quando disse que no confiaria Kathryn a ningum a no ser voc.
O calor daquela pele parecia subir pelo brao, rumo ao peito.
No era o toque quente de um amigo, mas algo mais profundo e provocante.
Sherry baixou o olhar, confusa. Suspirou aliviada quando Clint a soltou para pegar uma chave de fenda.
	Walt achou ruim que voc tirasse alguns dias de folga do trabalho?  ele quis saber, enquanto seus dedos longos colocavam com preciso um parafuso no local apropriado.
	Walt no faz nada na vida alm de reclamar.
Clint achou graa.
E o homem mais mal-humorado desta cidade. Nunca vi algum capaz de enxergar tanta tristeza em cada amanhecer.
O riso de Sherry juntou-se ao dele ao lembrar-se de seu chefe no bar.
	Se Walter no est se queixando, est gemendo.  Ela pegou mais uma pea do bero e segurou-a no lugar para Clint.
Ele fez uma pausa para fit-la.
	Nunca teve saudade de lecionar?
Sherry sentiu a barreira postando-se no lugar, aquela que a protegia, que impedia que sentisse as emoes da mulher que um dia fora... e jamais voltaria a ser.
	No  respondeu com mais aspereza do que pretendia.
Forou um sorriso leve.
	Adoro aquele bar. Aprecio trabalhar noite adentro e as pessoas que conheo, e ganho um bom dinheiro com as gorjetas.  Ergueu de leve o queixo, como se desafiando-o a dizer algo em contrrio.
Clint analisou-a por um longo momento. Assentiu e voltou a trabalhar.
Mais alguns minutos e o mvel estava montado, e o colcho, no lugar. Sherry colocou os lenis que Etta Mae emprestara, e Clint pegou a menina.
	Eu fritarei alguns hambrgueres  disse ele ao deixarem o quarto.  No gostaria de comer alguma coisa?
	No, obrigada. Fiquei acordada at tarde, ontem, e estou exausta. Caso no se importe, acho que vou encerrar meu expediente.
No queria ficar sentada observando Clint cozinhar enquanto Kathryn gargalhava, acomodada no assento. Era tudo muito ntimo e domstico.
	H toalhas debaixo da pia do banheiro e, se precisar de qualquer coisa mais, basta pedir.
Como Clint estava diabolicamente atraente com o beb nos braos!
	Tenho certeza de que ficarei bem, Clint. Eu o verei pela manh.
Sherry girou nos calcanhares e se foi. Pegou a camisola e o robe e entrou no banheiro, na inteno de tomar um longo banho para aliviar a tenso nas costas e nos ombros.
No mentiu quando disse a Clint que estava exausta. Trabalhara at depois das trs da madrugada, e acordara com o telefonema dele mais ou menos s sete. Costumava precisar de, no mnimo, oito horas de sono para sentir-se bem.
Sob o jato quente do chuveiro, Sherry voltou a pensar no momento em que a mo de Clint cobriu a sua.
Por um breve instante, recordou-se da poca em que o toque daquela mo deixava seus joelhos bambos e a respirao presa na garganta. Reviveu o jeito como o toque de Clint, seu beijo, tornara difcil a manuteno do voto de virgindade dela at o casamento.
A culpa era da falta de sono, decidiu. Aqueles dias de romance e qumica intensa haviam ficado para trs.
Tomou um banho muito longo, relaxando msculo por msculo debaixo da gua morna. Quando, por fim, terminou, secou-se e vestiu camisola e robe.
Deixou a porta do banheiro aberta. O cheiro de hambrguer alcanou suas narinas, e ela concluiu, pelo tempo que demorou, que Clint j acabara de comer.
Ouviu o leve murmrio da voz grave dele. Vinha da sala de estar. Espiou do corredor e viu-o sentado no sof com Kathryn de encontro ao peito.
 Doce garotinha, estou aqui para voc. E no irei a lugar algum.
Sua entonao estava muito suave. Era uma cano de amor meldica e agradvel. Uma mo amparava a cabea da criana, ninando-a para dormir.
Era assim que poderia ter sido, concluiu Sherry, conforme fantasias passavam por sua mente. Com facilidade imaginava-se no sof com um beb nos braos, os dois amparados pelo abrao forte de Clint.
Piscou algumas vezes para apagar a cena impossvel. Sua viso ficou nublada por causa das lgrimas.
Era uma tolice, s isso.
Entrou no quarto, engolindo o pranto, que ameaava rolar.
Sempre soube que Clint seria um pai maravilhoso, e o que acabara de testemunhar comprovava isso. O corao dele j era da criana que julgava ser sua.
Sim, era o que sempre quisera para Clint, mas v-lo com a criana fez aflorar um sentimento que Sherry julgara superado. Achou que seria capaz de lidar com a situao, mas era insuportvel.
A primeira coisa a fazer pela manh seria dizer a Clint que no poderia mais fazer nada. Por mais que se importasse com ele e desejasse ampar-lo em um momento to especial, precisava manter-se inteira.

CAPITULO III

Glint abriu os olhos, tonto de sono. Teria adormecido com a televiso ligada?
No... no estava no sof, mas na cama. E o barulho que o acordou no vinha da televiso.
A conscincia aos poucos vencia o torpor. Por fim descobriu a origem do som que o despertara.
Sentou-se na cama.
"Kathryn!"
Viu-a deitada de costas, agitando os braos e chutando o ar. As mos abriam e fechavam, como se tentando capturar a plida luz do alvorecer que entrava pela janela.
A menina acordara chorando diversas vezes durante a noite. Clint, em consequncia disso, tambm dormiu pouco.
A meia-noite, dera uma mamadeira e trocara a fralda de Kathryn. As duas da madrugada, sentara-se perto do bero e acariciara-lhe o rosto at a menina voltar a dormir.
s trs, tomara-a nos braos e cantara todas as canes de ninar que no foram entoadas para ele quando criana.
Embora fosse bem cedo e sentisse como nunca os efeitos do pouco sono, tambm experimentava a profunda alegria da paternidade. A cada momento que passava, tinha mais certeza de que Kathryn era sua.
No sabia o motivo de Candy no ter lhe contado. Desconhecia a espcie de jogo que poderia estar tramando, mas, se era uma artimanha para obter apoio de sua parte, tanto emocional quanto financeiro, no haveria problema.
Clint pretendia ser o pai daquela garotinha no pleno sentido da palavra. Pagaria seu sustento e exigiria liberdade para visit-la quando quisesse. Se descobrisse que Candy no era uma me adequada, lutaria com ela na Justia para obter plena custdia.
Mas antes precisava descobrir o que estava acontecendo. E isso significava que teria de levantar-se.
Embora zonzo, ficou de p, vestiu cala jeans e foi at a beirada do bero. Kathryn sorriu.
Como um raio de sol, o gesto aqueceu-o. Kathryn... Sua criana. Sua filha.
	Ol, doura  murmurou, e passou um dedo pela testa pequenina.  Est pronta para outra troca de fralda?
A menina deu alguns chutes no ar, como se pedindo que ele se apressasse.
	Est bem... est bem.
Clint trocou-a, tomou-a nos braos e foram juntos para a cozinha.
No instante em que colocou-a na cadeirinha, ela comeou a se debater, e Clint entendeu que estava com fome. Foi gil em preparar uma mamadeira, enrol-la em uma toalha de papel e dar para a menina.
Ps-se a fazer caf. Sherry, na certa, dormia. No ouvira nenhum rudo em seu quarto quando passou pela porta. Sabia que ela estava habituada a horrios diferentes por causa de seu trabalho como garonete. Porm, recolhera-se bem cedo, na vspera.
Clint consultou o relgio sobre o fogo. Passava alguns minutos das seis. Daria uma hora e pouco a Sherry, ento, teria de acord-la para que ele pudesse se preparar para o trabalho.
Um momento mais tarde, servia-se uma xcara fumegan-te. Sentou-se  mesa, pensando na mulher que ocupava seu aposento de hspedes.
No costumava haver muita estranheza entre os dois. Contudo, desde que Sherry chegou para ajud-lo com Kathryn, pairava uma energia estranha ao redor deles. Algo que ele no compreendia bem.
Sabia apenas que detestaria prejudicar a amizade que conseguiram criar. E pensar que ela nascera de um amor infantil... Eram muito jovens, e fora o primeiro relacionamento srio dos dois.
Amor infantil. Seria mesmo isso o que tiveram? Com frequncia, Clint dizia a si mesmo, no decorrer dos ltimos cinco anos, que fora um inocente primeiro amor, que no poderia ser sustentado alm da fantasia de duas crianas.
Entretanto, na poca em que estavam juntos, no parecera assim. O sentimento por Sherry consumira-o. Os planos para um futuro juntos encheram sua vida de alegria e uma felicidade que nunca antes experimentara.
Porm, estava acabado. Era uma parte do passado que Clint quase nunca dava-se ao luxo de examinar.
Sherry escolhera no ficar a seu lado, insistido que seu anior por ele mudara. E nada do que disse ou fez nos anos seguintes indicou alguma alterao.
Ela tomara sua deciso, e parecia satisfeita com isso. Final da histria.
Quando Clint terminou de tomar o caf, Kathryn j havia bebido quase todo o contedo da mamadeira, e dormira de novo.
Clint deu outra olhada para o relgio de parede e decidiu que precisava acordar Sherry.
Pegou outra xcara, encheu-a com caf, acrescentou dois tabletes de acar e uma boa quantidade de leite. Do jeitinho que Sherry gostava. Levou-a at a porta fechada do dormitrio dela.
Bateu com delicadeza contra a madeira e esperou uma resposta. Nada. Nenhum som remotamente vivo do outro lado. Tornou a bater, com mais fora.
	Sim?  A resposta sonolenta era audvel, embora fraca, e Clint interpretou como um incentivo para que entrasse.
No instante em que o fez, constatou seu erro. Sherry sentou-se e agarrou o lenol, cobrindo-se at o peito. Mas no antes de Clint ver a linda camisola e os contornos dos seios mal escondidos pela seda.
Ficou acalorado. Na verdade, parecia ter mergulhado numa fornalha.
	Eu... trouxe caf para voc  disse, desajeitado.
O quarto pareceu menor do que antes.
	Obrigada. Pode colocar ali.  Sherry indicou a penteadeira e passou a mo pelos cabelos.
Clint obedeceu, consciente do perfume floral reinante. Uma fragrncia delicada e feminina que sempre associou a Sherry.
	Precisarei me arrumar para o trabalho em poucos minutos, Sherry.
	Est bem. D-me um minuto ou dois, e estarei pronta.
Clint a deixou e voltou para a cozinha. Desabou em uma cadeira e respirou fundo. Com vagar, inalava e exalava, esperando que o calor sufocante passasse.
S conseguia pensar naquela imagem to suave. Ela parecera doce e mais vulnervel do que nos ltimos tempos. As feies relaxadas, o sol matinal criando uma aura dourada...
Os cabelos estavam em desalinho, os olhos, duas plcidas piscinas verdes. Parecera quente, acolhedora e sensual como ningum. Por um instante, Clint quis despir-se e deitar naquela cama a seu lado.
Quisera tocar na pele macia que fora exposta por segundos ao seu olhar vido. Desejara sentir nas mos os seios, enquanto moldava a extenso de seu corpo ao dela.
Empurrou a cadeira para trs e levantou-se, e o movimento sbito a fez cair. O barulho assustou Kathryn, que comeou a chorar em protesto.
	Ei... ei!  Clint inclinou-se para confortar a menina.
 Est tudo bem. Perdo se assustei voc.
Na verdade, era ele quem estava apavorado com os pensamentos malucos a respeito de Sherry.
Pelo visto, fazia tempo demais que estava sem uma mulher, procurou consolar-se. Desde Candy no dormia com ningum. Um ano e meio... Fazia um ano e meio desde que fizera amor pela ltima vez. Pudera ter se entretido com ideias sensuais sobre Sherry!
Como se o beb sentisse a tenso que emanava dele, comeou a gritar mais alto. E, naquele instante, Sherry chegou, com a xcara na mo.
Usava jeans e uma camiseta bem larga, cor de pssego. A cabeleira fora penteada com preciso, e o rosto parecia recm-lavado.
	Mais um pouco de caf e eu me sentirei quase humana.
Clint sorriu, percebendo que voltavam ao comportamento habitual.
	Voc no toma caf puro, Sherry, mas com acar e leite.
	E a nica maneira de eu tolerar esta mistura que voc chama de caf  rebateu, sorrindo.
	Preciso tomar banho e me vestir. Andy estar aqui em pouco tempo para me apanhar.
Foi para a porta.
	Clint!
Ele virou-se. Sherry o contemplou, e ento ao beb, com a testa franzida.
	Deixe para l.
	Est tudo bem?
Ela assentiu.
	Tudo. V se arrumar.
Um instante mais tarde, j sob o jato forte do chuveiro, Clint ficou imaginando se Sherry pretendera dizer que ia embora.
Se fosse esse o caso, Sherry voltara atrs. E por isso sentia-se grato.
Nem sabia o que faria se ela decidisse no ajud-lo mais com Kathryn. Clint no tinha irmos ou irms, e os pais tinham morrido. Ao menos para ele.
Era estranho, mas no costumava recordar as pessoas que o haviam criado. No ocuparam grande parte de sua vida quando ele estava crescendo e precisando de apoio. E decerto no tentariam ajud-lo agora, na fase adulta.
Fechou o registro e pegou uma toalha. No sabia que Sherry pretendera lhe dizer que partiria. Tambm nem imaginava o que causara as fantasias sensuais que o torturaram minutos atrs.
Sherry teve inteno de dizer a Clint que ele teria de encontrar outra pessoa para cuidar de Kathryn. Fora dormir na noite anterior determinada a fazer isso logo pela manh. Assim, voltaria a sua rotina, onde no existiam bebs nem coraes partidos.
O que acontecera com sua inteno?
Tomou um gole de caf e ergueu uma sobrancelha, pensativa. Olhou para a menina. Seria porque,  luz do dia, estava se sentindo mais forte e capaz de lidar com a situao?
Ou seria tarde demais e sua alma j fora atrada pelo rosto angelical a lhe oferecer um sorriso desdentado?
Tambm sorriu para Kathryn, que ergueu as perninhas e balanou os braos em resposta.
Algum tocou a campainha. Sherry levantou-se. Devia ser Andy vindo buscar Clint.
	Ol, Andy, entre! Clint estar pronto em instantes.
Andy olhou para as duas xcaras de caf que trazia. Ofereceu uma a Sherry, mas ela no aceitou.
Andy seguiu-a at a sala de estar e depois para a cozinha, parecendo deliciado quando Kathryn brindou-o com um sorriso contagiante.
	Mas que doura!  Colocou as xcaras na mesa e estendeu a mo.
A mozinha de Kathryn apertou um dedo com fora.
	Posso?  Andy fez um gesto indicando se poderia peg-la.
	A vontade.
	Ela dormia ontem de manh quando passei por aqui  explicou-se, enquanto tirava a garotinhado banco e, com cuidado, ajeitava-a nos braos.  E linda!
Kathryn agarrou o nariz e uma orelha de Andy e contorceu o rosto do policial. Sherry gargalhou e, naquele momento, Clint foi ter com eles.
	E pensar que ele  quase tudo o que temos entre as boas pessoas de Armordale e os criminosos...
Sherry tornou a rir e pegou a menina do colo de Andy. Mas ficou sria quando olhou para Clint.
	Vou lhe dizer o que  um ato criminoso, xerife: deixar um nen na varanda de algum, sem nada alm de um bilhete como companhia. E se voc no estivesse aqui? E se tivesse sado da cidade para uma viagem, ou algo assim?
Sherry calou-se. Surpreendera Clint e Andy com sua exploso. O maior espanto, entretanto, era o dela mesma.
Estivera pensando naquilo, mas no pretendera verbalizar.
No parecera justo que nunca pudesse ter filhos e algum que teve aquele beb precioso a tivesse deixado  soleira como se fosse um jornal.
	Sinto muito  sussurrou, envergonhada.  No  de minha conta.
	Bobagem! Evidente que . Passou a ser quando lhe pedi ajuda, Sherry. E est certssima. Tentei telefonar diversas vezes para Candy ontem, e no obtive resposta. Depois, acabei tendo de tratar de um caso de roubo e tive de reunir todas as coisas necessrias para o beb.
	Quem foi roubado?  Sherry perguntou, curiosa.
Havia poucos crimes em Armordale, e um roubo seria uma notcia que se espalharia rpido.
	A loja de convenincia de Jerry Baker foi assaltada. Levaram quatro gomas de mascar e duas barras de doce. Pegamos os culpados, dois garotos de oito anos de idade que decidiram matar aula, e ficaram com fome por volta do meio-dia.
Clint pegou uma das xcaras que Andy trouxera.
	Aqueles meninos pensaro duas vezes antes de at mesmo entrarem em uma loja depois do sermo que Clint lhes deu  Andy falou, divertido.  Est pronto, xerife?
Ele assentiu e olhou para Sherry.
	Terei algumas respostas quando voltar para casa, esta noite.
Inclinou-se e passou o dedo por uma bochecha de Kathryn. A boca da menina abriu-se como se Clint estivesse lhe oferecendo uma mamadeira. Todos riram, e ento os homens foram embora para o servio.
Assim que saram, Sherry sentou-se para tomar mais caf. Kathryn voltara a adormecer, devidamente protegida pelo cinto de segurana do assento especial.
Se Clint encontrasse Candy naquele dia, ento era possvel que a moa retornasse para pegar a criana. Isso se Kathryn fosse de Candy.
O clculo de Clint indicava que Kathryn devia ser sua filha e de Candy. E tudo aquilo parecia uma manipulao da moa. Era possvel que Candy tivesse deixado o nen ali com. Clint para que ele criasse um lao com a menina. Ento, Candy reapareceria para uma feliz unio familiar e levaria-o ao altar. Algo que no fora capaz de fazer quinze meses atrs.
O casamento de Clint com qualquer mulher mudaria para sempre as dimenses de sua amizade com Sherry. Ela sabia que esposa alguma gostaria de t-la por perto como camarada do belo xerife. E Sherry tinha conscincia de que Clint tinha um forte senso do que era moral, tico e correto.
Embora no amasse Candy, casar-se-ia com ela se achasse que era o melhor para a criana. E Sherry o perderia para sempre.
Levantou-se e foi at a janela. Olhou para fora, lutando contra a tristeza profunda e a solido que a castigavam.
Se aquilo acontecesse, se Clint viesse a casar-se, seria como se Sherry estivesse perdendo seu nico amor verdadeiro.
Procurou consolar-se. Amizades vm e vo, desenvolvidas pelo destino. E se o destino decretasse que Clint e Sherry no mais seriam amigos, o que poderia fazer?
Afinal, ela j havia conseguido lidar com a perda de suas esperanas e sonhos. Na certa quando chegasse a hora certa, tambm aceitaria perder Clint.
Conforme na vspera, as horas passaram com rapidez. Quando Kathryn acordou da soneca, Sherry alimentou-a com cereais de arroz e frutas. Depois, deu-lhe um banho na pia da cozinha e vestiu-a com uma das roupinhas novas que Clint trouxera.
Tentou com afinco permanecer impassvel ao cuidar da criana. No gostaria de sentir um afeto real. Mas era impossvel. Kathryn transmitia uma energia amorosa que tocava todos os que se aproximavam dela.
Com pesar, Sherry teve de aceitar que no era uma ex-ceo. A cada minuto que passava, sentia-se mais e mais apaixonada por aquele beb.
Clint discou o nmero de Candy pela quinta vez naquele dia, franzindo a testa enquanto a linha do outro lado chamava sem resposta. Candy sempre teve uma secretria ele-trnica, mas nenhuma mquina atendeu, solicitando que deixasse recado.
	Clint? Betty Wade est ao telefone. Gostaria de saber do quanto estaria encrencada se desse um tiro no cachorro de Walt Clary.
Clint desligou.
	Por que ela quer atirar no pobrezinho, Andy?
	Parece que o co lhe faz uma visita todas as manhs e aproveita para depositar suas necessidades na floreira dela. Sabe como Betty adora aquelas flores...
Clint assentiu.
	Diga-lhe que se ela atirar no cachorro de Walt, terei de prend-la. E no acho que v gostar das acomodaes daqui.
Andy desapareceu para dar o recado e voltou um momento depois.
	Betty quer saber o seguinte: se atirar em Walt voc a prender ou lhe dar uma medalha de honra ao mrito?
Clint gargalhou.
	Conversarei com Betty.  Apertou o boto de aceso em seu aparelho.  Betty,  o xerife Graham. Voc e Walt esto tendo problemas de novo?
Ouviu-a se queixando do vizinho e de seu co.
	Irei  casa de Walt para conversar com ele. E voc me prometa que manter sua espingarda muito bem guardada.  Desligou e levantou-se.
Deixou a sala, informou a Andy e a Etta Mae que iria at a residncia de Walt e entrou na radiopatrulha.
Diminuiu a velocidade ao passar pela casinha de Betty Wade. Como sempre, naquela poca do ano, as flores desabrochavam em uma profuso de cores em seu jardim. Eram de diversas variedades e ocupavam uma dzia de floreiras.
As flores de Betty eram a famlia dela. Clint compreendia sua frustrao para com o cachorro de Walt que, a cada ano, parecia mais habituado a fazer suas necessidades em cada membro da "famlia" de Betty.
Consultou o relgio de pulso ao estacionar diante do sobrado desleixado de Walt. Passava alguns minutos das trs horas. Walt s iria para o bar por volta das cinco.
Saiu do carro, e o dono da casa logo apareceu  porta da residncia, com o pequeno cachorro de uma orelha s ao lado.
	Eu sabia que ela estava ligando para o xerife!  Walt exclamou antes que Clint pudesse dizer qualquer coisa.  Aquela mulher tem uma boca gigantesca.
	Sabe que temos uma lei rgida, Walt.  Clint procurava manter a expresso de fria autoridade.  Eu detestaria apreender Rover.
	Rover no faz mal a ningum.  Walt fez um carinho no animal.  Ele tem fetiche por flores... no tenho culpa. Voc devia era trancafiar Betty. E mais maldosa do que Rover jamais sonharia ser.
Toda primavera e todo vero era a mesma batalha. Clint pressentia que os dois idosos tinham uma perversa satisfao em trocar farpas.
	Estou bravo com voc, a propsito, xerife. Roubou minha melhor garonete e fez com que ela bancasse a bab, pelo que ouvi dizer.  Lanou um sorriso beligerante para Clint.  Tambm disseram que o beb pode ser seu.
	No devia dar ouvidos a mexericos, Walt. E eu apenas "roubei" Sherry por alguns dias.
	Alguns dias como dona de casa e cuidando de um beb? Acha mesmo que ela desejar voltar para meu bar?
 Balanou a cabea de leve, as feies entristecidas.  Sherry no voltar. Vai querer se casar e formar uma famlia, agora que saber como . E, sem Sherry no bar, os negcios iro de mal a pior. Sem dvida terei de vender o estabelecimento.
Clint deixou que Walt falasse e, quando parou para tomar flego, interrompeu-o:
 No est funcionando, Walt. Voc pode mudar de assunto o quanto quiser, culpar-me por todos os dias tristes que acha que esto a sua frente, e ainda assim me lembrarei do motivo de estar aqui. Mantenha seu cachorro preso e distante das flores de Betty, ou terei de mult-lo e confiscar Rover.  Sem esperar por resposta, Clint retornou ao veculo.
Minutos mais tarde, rememorava o que Walt dissera a respeito de Sherry. "Vai querer se casar e formar uma famlia..."
Claro, Walt no sabia que isso era impossvel para Sherry. No haveria famlia para ela, a menos que se casasse com um homem que j tivesse filhos.
Esperava que isso acontecesse um dia. Desejava que Sherry conhecesse um sujeito maravilhoso, que tivesse crianas pequenas, adorveis e precisando dela.
Queria que Sherry fosse feliz, e muito tempo atrs constatou que ela no acreditava que a felicidade pudesse estar a seu lado.
Sabia que Sherry namorava de vez em quando, mas nunca discutia seus relacionamentos pessoais com ele. De qualquer maneira, no namorou ningum por muito tempo.
Sim, desejava que ela fosse feliz. O que no compreendia era a razo de a imagem de Sherry casada com outro causar-lhe uma sensao to poderosa de solido.

CAPITULO IV

No sei por que no consigo entrar em contato com Candy  Clint queixou-se, ao ajudar Sherry a lavar a loua do jantar.
Ela surpreendera-o com uma refeio composta por carne com batatas. O cheiro dominara o ambiente durante toda a tarde, fazendo Sherry lembrar-se dos domingos de sua infncia, quando a me preparava a refeio para o final da tarde.
	O bilhete dizia que a me de Kathryn ficaria distante por uns tempos  Sherry lembrou-o.  Talvez tenha ido viajar.
Tampou o ralo da pia para ench-la com gua e sabo.
	Faz sentido que tenha deixado o beb aqui, sabendo que voc cuidaria de Kathryn durante sua ausncia.  possvel que todo o perigo e a intriga a que se referiu sejam apenas uma piada.  Sherry tentava no imprimir censura  voz.
Clint ficou olhando para o beb, pensativo.
	No sei, Sherry. Percebi que Candy  egosta e ftil, mas no posso imagin-la irresponsvel o bastante para abandonar a filha em minha varanda.
Sherry mergulhou os talheres e pratos na gua com sabo. Mordeu a lngua. No gostava de Candy desde o momento em que Clint as apresentou. Ningum ficou mais contente do que Sherry quando o relacionamento de Clint com aquela moa acabou.
Mas estaria mesmo terminado? Kathryn poderia ser o lao que os uniria para sempre, contra o qual Sherry no poderia competir.
Esfregou os pratos com fora, admoestando-se em silncio. Era claro que no poderia competir com a capacidade de Candy de gerar filhos. E decerto no gostaria de competir por Clint.
	Tentarei telefonar para ela outra vez agora  Clint disse.  Tentei durante todo o expediente. Candy ter de ir para casa, mais cedo ou mais tarde.
Foi at o aparelho telefnico, que estava sobre o balco, e ps-se a digitar os nmeros. Sherry tentou ignorar como ele estava atraente usando jeans e camiseta branca.
Seus ombros sempre foram to largos? O tecido de algodo colava-se em alguns pontos das costas, sobretudo quando Clint se inclinou para fazer um carinho em Kathryn.
E por que ela estava notando a expanso daqueles ombros, o traseiro bem torneado e os quadris estreitos?
No decorrer dos ltimos anos, conseguira transformar Clint em sua mente de um homem sensual e viril em um amigo assexuado. Por que de uma hora para outra voltava a ser o ser desejvel que um dia fora?
Ela tirou o sabo dos pratos e colocou-os no escorredor. Em seguida mergulhou os copos na gua.
Clint desligou, com um suspiro de frustrao.
	Nem mesmo a secretria eletrnica atende...
	Talvez voc devesse tentar obter informaes.  Sherry secou as mos e virou-se para encar-lo, um tanto surpresa por ele no ter sido mais agressivo na busca por Candy.
Clint estava ao lado da mesa, em p, fitando o beb. Sua expresso era do mais puro amor.
Houve poca em que fitou-a daquele mesmo jeito, Sherry lembrou. A recordao causou-lhe uma dor no corao quase impossvel de ser suportada.
	No  possvel que Candy tenha se mudado e o nmero de telefone que voc tem j no seja mais dela? Afinal, j faz quase um ano e meio que conversaram pela ltima vez.
	Talvez esteja certa, Sherry. Tentarei saber. 
Mais uma vez, o xerife pegou o fone e discou.
Enquanto falava com um operador, Sherry terminava de Ilavar a loua e servia-se de uma xcara de caf. Sentou-se.
Ficava imaginando se Clint no se dedicava muito a so-jlucionar o mistrio de Kathryn porque fora envolvido pela |fantasia da paternidade.
Um dia Clint lhe falou que nunca pensou muito em ter filhos e que ser pai no era importante para ele. Mas disse |isso antes da presena de Kathryn em sua vida.
Desde ento transformou-se de um homem que no pensava em ter filhos em um pai.
	Tem razo  Clint falou ao desligar.  O nmero que tenho de Candy no est mais em funcionamento e no h outro cadastrado em seu nome.
	E agora, o que far?
	No sei. No me lembro do nome da agncia de viagens em que Candy trabalhava quando a conheci. E h cerca de cem delas em Kansas City.
	Poderamos dividi-las em blocos e passar o dia de amanh telefonando para cada uma.
Clint franziu a testa.
	Parece-me muito tempo e trabalho para pouca possibilidade de sucesso. Se bem me recordo, Candy detestava seu emprego e falava sobre uma mudana de carreira.  possvel que j no esteja nesse ramo.
Sherry levantou-se para pegar mais caf.
	Quer um pouco?
	Sim, obrigado. A propsito, acho que no mencionei que o jantar estava excepcional.
Sherry sorriu ao colocar a xcara diante de Clint, e voltou a sentar-se.
	Est dizendo isso para que eu me sinta lisonjeada e prepare o jantar de amanh tambm.
Ele riu e estendeu a mo, pousando-a na de Sherry.
	Olhe, no espero que voc cozinhe para mim, nem limpe a casa. Sei que estes dois dias com Kathryn tm sido difceis para voc, e jamais serei capaz de lhe pagar pelo que est fazendo.
	Amigos ajudam amigos.  Levantou-se, precisando de uma distncia fsica da presena mscula e potente de Clint.  Se no se importa, acho que darei uma caminhada para respirar ar puro. No tenho sado daqui desde que cheguei, e gostaria de esticar as pernas um pouco.
	Parece uma boa ideia. Importa-se em ter companhia?
"Sim, eu me importo", queria gritar. "Preciso de algum tempo sozinha para colocar voc de volta no lugar onde deve estar... nos recessos mais escuros de minha mente."
	Mas voc no tem um carrinho de beb.
Clint deu de ombros, ergueu-se e tirou Kathryn da cadeirinha.
	Ela  leve. Posso carreg-la. Alm do mais, a noite est deslumbrante, perfeita para uma caminhada agradvel.
Sherry assentiu e conteve um suspiro de resignao. Em minutos, os trs saam para a noite quente. Sherry aspirou o ar fresco, bendizendo o cheiro desprovido do perfume de beb e da colnia de Clint.
	Esquerda ou direita?  ele indagou ao chegarem  calada.
"E se eu fosse para a esquerda e voc e Kathryn para a direita?" Sherry sentia-se acalorada e irritada. A paz que conseguira conciliar durante os ltimos cinco anos estava seriamente ameaada.
	Vamos para a esquerda  Clint decidiu.
Andaram em silncio por instantes. O nico som era dos murmrios de Kathryn e de uma cidade preparando-se para se recolher. Portas de garagem se fechando, luzes sendo acesas nos lares, feixes de iluminao contra o lusco-fusco... Por algum motivo, os rudos e a viso de famlias reunidas ao final de um dia despertaram uma intensa melancolia em Sherry. Ser que ainda dividiria suas noites com algum?
	Talvez eu deva telefonar para Stan Glenaire.
	Se algum pode encontrar Candy, Clint, tenho certeza de que  Stan.
Stan Glenaire era um velho amigo de Clint da poca em que ele morava em Kansas City. Trabalhou durante quinze anos como oficial de polcia daquela cidade e depois decidiu tornar-se detetive particular.
Uma vez por semana, Stan ia de Kansas City  pequena cidade de Armordale para jantar com Clint. Sherry juntou-se aos dois diversas vezes. Gostava do senso de humor e da generosidade do detetive alto e atraente.
	Ligarei para Stan logo pela manh e verei o que ele pode descobrir para mim. Conversei com Walt hoje. Ele tem certeza de que voc no voltar a trabalhar no bar.
Sherry olhou para Clint, espantada.
	Por que ele acha isso?
	Imagina que, agora que voc teve uma amostra do que  ser uma esposa, vai desejar se casar e no mais ser garonete.
Sherry achou graa, embora o som sasse desprovido de alegria verdadeira.
	Walt no precisa se preocupar com isso. No tenho nenhum plano de me casar.
	Jamais?
Clint fitava-a com intensidade, e Sherry desviou o olhar.
	Eu no sei... "Jamais"  muito tempo. O que sei  que minha vida  plena e feliz como est.
	Nunca sente solido?
	Algumas vezes. Embora ache que seria muito mais solitrio se me casasse com algum que eu no amasse.
Ainda mais sabendo que no haveria crianas para uma continuidade, nenhum beb para abrigar a esperana e os sonhos e aprofundar a conexo entre os pais.
	Por que nunca se casou, Clint?  As palavras saram da boca de Sherry antes que ela se desse conta. Tentou suavisar o clima com um sorriso provocante.  Sei que  considerado o maior partido de Armordale.
Ele gargalhou.
	Isso no  um grande elogio em um lugar em que a mdia de idade da populao masculina  de sessenta anos.  Clint ficou srio e encarou-a.  Quis me casar uma vez, e no deu certo. No tenho pensado muito no assunto, desde ento.
Sherry sentiu as faces quentes por causa do rubor e, mais uma vez, desviou o olhar. Nunca tinham conversado sobre o passado e o noivado.
Sabia que o havia machucado, mas fora uma mgoa necessria para a felicidade dele. Sherry parou de andar.
	Devemos voltar. Est ficando escuro e frio.
O que queria mesmo era uma mudana no tpico da conversa.
Comearam a caminhar para a casa. Mais uma vez em silncio, acenando aos vizinhos enquanto passavam.
Kathryn adormecera, aconchegada ao peito de Clint. Cada vez que Sherry olhava para o beb e para ele, que segurava-a como se fosse o que havia de mais precioso no mundo, a dor em seu corao ficava mais intensa.
	Como est sua famlia, Sherry? Quase nunca vejo sua me ou irm na cidade.
	Esto bem. Mame ocupa-se com o trabalho na loja,
e os filhos de Susan a mantm em casa, muito satisfeita.
Sherry sentiu uma pontada de culpa. Permitira que o relacionamento com sua irm fosse negligenciado assim que Susan comeou a ter filhos com regularidade e facilidade.
Fora doloroso demais ver sua irm realizar-se como me, com quatro filhos, enquanto Sherry jamais apreciaria a mesma felicidade!
	Mame ainda est brava comigo por eu ter deixado o emprego de professora para trabalhar para Walt.
	Foi uma surpresa para todos que conhecem voc. Era uma professora maravilhosa.
Sherry sentiu a barreira em torno de seu corao fortalecendo, tornando-se mais densa e impenetrvel.
	Eu me cansei. Todos os dias havia aquele barulho todo, o lidar com mentes imaturas, as conversas interminveis.
	Parece-me que  justo isso o que faz no bar de Walt, agora  Clint comentou, rindo.
Sherry riu tambm, divertida ao constatar a verdade.
	Tem razo.
Mas Clint no compreendia como lecionar tornara-se doloroso. No havia experimentado a presena de um garoti-nho pressionando o corpo em busca de um abrao, uma menina enlaando seu pescoo com braos gordinhos. E aquele doce cheiro da infncia que era emitido por todas as crianas... tudo isso era uma tortura quotidiana para ela. Pois sabia que jamais teria uma criana sua.
Por isso optou por distanciar-se de tudo o que a magoava na vida: lecionar, seus familiares... Clint.
Desistir de Clint fora bem mais difcil do que deixar o emprego ou permanecer emocionalmente distante de sua famlia. Ao desistir de Clint, escolhera uma vida desprovida de amor.
Durante os dois ltimos dias, o tempo que passou com ele e Kathryn apenas redefiniu essa dor particular em seu peito.
Chegaram  casa e Clint levou a criana adormecida di-reto para o bero. Em seguida, juntou-se a Sherry na sala de estar.
	Clint, quando eu concordei em ajud-lo, foi apenas por alguns dias. Se voc no descobrir algo a respeito de Candy amanh, ter de encontrar outra pessoa. Preciso voltar  minha vida.
Uma expresso de pnico tomou o rosto dele.
	Ah, Sherry, no diga isso! No tenho o menor controle sobre a rapidez com que poderemos encontrar Candy. Alm do mais, o que est esperando por voc em seu apartamento? No tem gatos ou cachorros. Nem mesmo tem plantas que precisem ser aguadas.
Ele inclinou-se e ajeitou uma mecha de cabelos de Sherry. O toque era o mais ntimo que tinham em anos.
	No fuja de ns agora, Sherry. Kathryn precisa de voc. Eu preciso de voc.
Clint estava to prximo que ela se sentia abraada por seu calor e perfume. Por um instante, pensou que a beijaria. E como queria que fizesse isso!
Gostaria de sentir os lbios ternos de Clint nos seus, os braos fortes em torno de seu corpo. Sem que se desse conta, ela se inclinou um pouco para a frente, permitindo um acesso mais fcil, caso decidisse beij-la.
Mas ele no fez isso. E em um mpeto, Clint se levantou.
	 possvel que amanh tenhamos algumas respostas.Mas se no tivermos, espero que voc mude de ideia e fique aqui. Acho que seria melhor se eu fosse dormir, enquanto Kathryn est adormecida. Eu a verei pela manh.
 Boa noite, Clint.
Quando ouviu o som da porta do quarto dele sendo fechada com suavidade, Sherry soltou um profundo suspiro, uma combinao de alvio com decepo.
Desejou que ele a beijasse. E isso a apavorava. Pegou uma das almofadas e abraou-a de encontro aos seios, imaginando se, apertando com fora, seria banido o vazio que existia dentro dela.
No quis apenas que Clint a beijasse. Desejou que a tomasse nos braos e acariciasse seu corpo at deix-la lnguida de desejo.
Sua mente repassou recordaes de como um dia havia sido entre eles: a paixo doce e explosiva sempre contida em um determinado ponto, em virtude do desejo de Sherry de ser virgem at a noite de npcias.
Desejava agora no ter sido to teimosa quanto a isso. Queria ter permitido que a paixo os varresse alm da razo. Como desejava que ao menos uma vez tivesse perdido o controle e deixado que os carinhos acalorados aflorassem at fazerem amor.
Apertou com mais fora a almofada. Talvez fosse melhor do jeito como estava, considerou. Pois no tinha a recordao de ter feito amor com Clint para atorment-la.
V-lo com Kathryn nos ltimos dois dias apenas sedimentou a deciso que tomou tanto tempo atrs ao deix-lo.
Clint merecia uma esposa amorosa e muitos bebs. Uma mulher completa. No a pessoa amargurada que Sherry havia se tornado. 
As mos de Clint tremiam ao despir a cala jeans. Sentou-se na beirada da cama e respirou fundo.
Desejo. Passava por seu corpo como uma corrente eltrica. E desejo tinha um nome... Sherry.
Por um instante, quando estavam sentados to prximos no sof, Clint achou que vira a mesma emoo nos olhos dela.
Despiu a camiseta e deixou-a cair no cho. Em seguida, as meias a seguiram. Apagou a luz e foi para a cama.
Devia estar enganado. Imaginara o desejo nos olhos verdes de Sherry. Vinha dormindo pouco e estava cansado o bastante para elaborar fantasias.
Sobrevivera  deciso que Sherry tomou anos atrs. Conseguiu viver sem am-la no sentido romntico por cinco anos. No suportaria se tudo mudasse. Recusava-se a permitir que uma qumica momentnea destrusse a amizade que conseguiam sustentar.
Fechou os olhos, seguro de que o que sentiu e o que acreditara ter visto nos olhos de Sherry no haviam sido reais.
Em minutos, estava adormecido e sonhando. Sabia que sonhava porque mais uma vez tinha vinte e trs anos de idade. Ele e uma Sherry com vinte e um anos estavam dentro de um carro estacionado  margem do lago Armor-dale, o pequeno lago nas cercanias da cidade. Aquele sempre foi o lugar especial para ficarem a ss.
Clint tinha um apartamento, mas ambos passavam pouco tempo ali, sabendo que a privacidade tornaria mais fcil a liberao da paixo que sentiam um pelo outro. Uma paixo contra a qual lutavam sem parar em prol da noite de npcias.
Sentiu o calor de Sherry nos braos e sorveu com avidez o nctar de seus lbios. O corpo dela parecia implorar ao pressionar-se com ansiedade contra o seu, na confiana de que seria Clint quem daria um aviso antes que a situao sasse do controle.
	Sherry, minha doce Sherry  ele murmurou ao beij-la no rosto e depois atrs de uma orelha.
Voltaram a se beijar na boca. Ento, de sbito, ela se afastou e saiu do carro.
	Sherry!  Clint gritou ao v-la correndo para a gua.
Desceu do carro tambm e correu atrs dela, incapaz de
alcan-la antes que Sherry mergulhasse rumo ao centro do lago, desaparecendo de vista.
Clint no sabia se foram os choros do beb que o acordaram ou seus prprios gritos. Recobrou a conscincia, enfim, e percebeu que os gritos de Kathryn resgataram-no do sonho.
Saiu da cama e acendeu o abajur. Ento balanou a cabea para livrar-se do sonho maravilhoso e, ao mesmo tempo, horrvel.
Enquanto trocava a fralda de Kathryn e conversava com ela, na tentativa de acalmar o choro da menina, tentava afugentar tambm as imagens do sonho. O que permaneceu foi uma terrvel angstia, uma inquietude ao lembrar-se de quando observou Sherry desaparecendo nas guas escuras do lago.
A fralda limpa no conseguiu conter o choro de Kathryn. Clint pegou-a no colo e levou-a para a cozinha, onde preparou uma mamadeira. Depois voltou ao quarto.
Era meia-noite. Ao passar pela porta de Sherry, notou que a luz do quarto no estava acesa. Pelo jeito, ela dormia.
Foi para o prprio quarto e fechou a porta, no querendo que Kathryn acordasse Sherry. Sentou-se na beirada da cama com o beb nos braos e tentou dar-lhe a mamadeira.
Kathryn no queria. Remexia-se, balanando a cabea de um lado para o outro, recusando o leite.
 Qual o problema, querida?
Clint desistiu e deixou a mamadeira de lado. Segurou Kathryn de encontro ao peito, balanando para a frente e para trs, na esperana de acalm-la.
Mas o choro ficava mais intenso a cada respirar da criana. Clint achava que no era um grito de dor e, pelo modo como evitou a mamadeira, tambm no se tratava de fome. Ento o que havia com ela?
Levantou-se e comeou a perambular pelo quarto, com delicadeza, ninando Kathryn. Talvez estivesse com clica.
Os berros pareciam dilacerar o peito de Clint. Estava muito preocupado. No queria que ela chorasse. Desejava que todos os dias da vida de Kathryn fossem repletos de sol e riso.
A porta de seu quarto abriu e Sherry apareceu ao batente. Ele fez meno de sorrir aliviado, mas quando viu a expresso em seus olhos, o alvio sumiu, substitudo por uma emoo mais forte.
Sherry percorrera seu corpo com o olhar. Um tom intenso de rosa coloria suas faces. S ento Clint percebeu que estava usando apenas cueca.
O beb se retorcendo em seus braos no o ajudou a conter o calor que comeou nos dedos dos ps e foi subindo pelo corpo.
	Desculpe-me, Clint... eu bati, mas acho que voc no me ouviu  falou encabulada, a voz mais rouca que o usual.
 Est com problemas?
O olhar de Sherry ia da esquerda para a direita dele. Evitava encar-lo.
	Kathryn no pra de chorar.
Embora soubesse em um nvel intelectual que a cueca cobria-o to bem quanto uma sunga de banho, sentia-se emocionalmente afetado. Afinal, a intimidade da camisola e robe de Sherry somada a ele usando apenas cueca causava estranhas reaes em sua imaginao e em outras partes de seu corpo.
Antes que se sentisse embaraado demais, estendeu o beb para Sherry.
	Talvez voc consiga fazer com que ela pare.
Sherry aceitou a menina, ainda evitando encontrar o olhar de Clint.
	Volte para a cama. Voc precisa trabalhar de manh. Eu cuidarei dela.
Sem esperar resposta, Sherry virou-se e deixou o quarto com a criana nos braos. 
Clint permaneceu imvel por um longo momento, aguardando que o ritmo cardaco e as emoes voltassem ao normal. Mas a normalidade parecia estranha a seu corpo.
Com as pernas trmulas, obrigou-se a cruzar o aposento para apagar a luz. Em seguida, voltou ao leito, que de repente tornou-se frio e muito grande para uma s pessoa.
Queria Sherry.
A constatao tomou-o com a fora de um soco no abdome. Quisera-a anos atrs, e agora parecia desej-la ainda mais.
Nada mudara desde aquela poca no passado, quando Sherry lhe falou que no queria casar com ele. No gostaria de passar o restante da vida a seu lado.
Apoiou-se no cotovelo e percebeu que a casa cara em silncio. No mais ouvia os gritos de Kathryn. Pelo visto, Sherry criara uma espcie de magia capaz de acalmar a menina.
Pressentia, entretanto, que Sherry no gostaria de fazer o mesmo por ele. No desejaria executar algumas mgicas para amansar o desejo que Clint sentia por ela e que dominava sua alma.

CAPITULO V

Osol da tarde danava por entre a cortina da sala de estar, transportando para o interior da residncia um calor agradvel, mas que fazia aumentar a sonolncia de Sherry.
Estava deitada no sof com as pernas dobradas para cima sustentando uma revista que esteve folheando. Mas seus pensamentos no pousavam nos artigos que lera. Estavam consumidos pela imagem de Clint.
A viso dele usando apenas cueca, na vspera, despertara fantasias que fazia muito tempo que no entretinha. Os dois nus sob lenis cheirosos, movendo-se em perfeita harmonia. Doces fantasias daqueles quadris nos dela, roubando seu flego com movimentos sensuais e beijos ansiosos. As mos de Clint passando por seu corpo enquanto a possua por completo.
Tentou deixar de pensar no assunto. Procurou concentrar-se na garotinha que dormia no quarto de Clint.
Na noite anterior, assim que levou Kathryn dos braos de Clint, a menina j parecia mais calma. Aconchegara-se de encontro a ela, decerto sentindo falta da me. O toque feminino de Sherry parecera diminuir a dor de sua ausncia.
Voltara para a cama com Kathryn nos braos. Quase no mesmo instante, a menina adormeceu, deixando-a livre para contemplar a escurido e lutar contra o desejo avassalador por Clint.
De onde viera tanto desejo? Pensou que muito tempo atrs tivesse se livrado da paixo por Clint. Mas teria apenas ficado dormente dentro dela, esperando a circunstncia correta para aflorar com renovada energia?
Sabia que no devia seguir os ditames da paixo. Teria como resultado apenas um corao partido se fizesse amor com Clint. No haveria um futuro juntos, mas apenas envolvimento sexual temporrio.
Ela, por fim, cara em sono profundo. Kathryn permanecera dormindo, tranquila, em seu brao, e assim ficou por toda a noite, despertando Sherry j de manh ao agarrar-lhe o nariz.
Fechou os olhos, pensando no que dissera a Clint. Mentiu ao afirmar que sua vida era plena e feliz. No era.
No encontrava satisfao alguma em trabalhar no bar de Walt. Detestava aquelas horas lidando com caubis grosseiros. Voltava para casa exausta, com os ps doendo e sem nenhuma satisfao profissional.
Talvez fosse hora de uma mudana. Mas que espcie de alteraes gostaria de realizar?
O distanciamento do trabalho no bar, durante aqueles dias, fez com que constatasse que era hora de alterar o rumo de seu destino. Mas nem sabia por onde comear.
Quando o mdico lhe falou que no poderia gerar, Sherry deixou o emprego de professora para evitar ficar perto de crianas. Estivera tentando mitigar seu pesar e, em vez disso, acabou apenas punindo a si mesma.
Ainda no tinha certeza de que seria capaz de ficar ao lado de crianas o tempo todo, mas com certeza era hora de avisar Walt de sua partida e de comear a explorar outras opes de trabalho.
Franziu a testa e ergueu as plpebras. Um som estranho, mal discernvel, rompeu a quietude. Sherry sentou-se e ps os ps no cho. No ouviu mais nada.
Olhou janela afora. Talvez tivesse sido um galho de rvore batendo na lateral da residncia. O franzir de testa se aprofundou. No podia ser um galho de rvore soprado pelo vento, porque nem mesmo uma brisa suave assanhava as folhas das rvores.
De novo o barulho... como unhas raspando uma parede.
Ficou de p e pendeu a cabea para um lado, tentando identificar de onde vinha o som. Kathryn! Talvez houvesse despertado e encontrado algo com que brincar no bero.
Foi ao corredor, p ante p, e fez uma pausa diante da porta fechada do quarto de Clint. Abriu-a e deu um passo para dentro.
Por um instante, a cena a sua frente no fez muito sentido. Kathryn dormia de barriga para baixo e o polegar na boca.
Atrs do bero, a tela da janela havia sido cortada e estava pendurada. A janela, que estivera fechada quando Sherry colocou a menina no bero para uma soneca, encontrava-se entreaberta.
Sherry ficou apavorada ao reconhecer as implicaes. Rompeu a inrcia, correu para o bero e tomou Kathryn nos braos. Ignorando os gritos de susto da menina, trancou a vidraa e correu para a porta da frente, certificando-se de que estava bem trancada.
Com a adrenalina ainda pulsando forte, disparou para a cozinha e checou a porta dos fundos para ver se estava fechada tambm. Depois agarrou o fone e discou o nmero do escritrio do xerife.
Clint atendeu e, ao som de sua voz calma e grave, Sherry irrompeu em prantos.
	Sherry, qual o problema?!
	Algum tentou entrar aqui! Kathryn estava dormindo e algum cortou a tela da janela de seu quarto.
	O qu? Fique calma!
	Por favor, Clint... venha para c. Venha para casa agora!
Ele no respondeu, e Sherry levou um momento para perceber que Clint desligara. Colocou o fone no gancho e apertou Kathryn de encontro aos seios.
Algum tentara entrar ali. Por qu? E de todos os quartos da residncia, por que escolhera logo aquele onde Kathryn dormia?
As concluses aterrorizaram-na.
Calma, anjinho  disse, com suavidade, tentando confortar o beb, que parecia perceber sua tenso... seu medo.
Aproximou-se da entrada e espiou l fora. Era um lindo dia de primavera. Nada parecia diferente. Ningum meio escondido do outro lado da rua, nenhum carro com janelas escurecidas passando devagar pela casa. E mesmo assim, Sherry sabia que l fora havia algum que pretendera entrar na casa. Uma pessoa que queria Kathryn.
Suspirou, aliviada, ao ouvir o som distante de uma sirene. Parecia esquisito... a sirene rompia a tranquilidade do dia. Nem se lembrava da ltima vez em que ouviu uma sirene em Armordale.
Um cantar de pneus sinalizou a chegada de Clint. Sherry destravou a porta e encontrou-o na varanda. Comeou a chorar outra vez.
	Seu quarto...  balbuciou, tentando obter flego para lhe contar o que acontecera.  Algum tentou entrar atravs da janela de seu quarto.
As feies de Clint estavam to srias que ele parecia o homem mais perigoso que Sherry j viu. Tirou o revlver do coldre.
	Entre e tranque a porta, Sherry. No abra para ningum, exceto para mim.
Clint no precisou dizer duas vezes. Sherry retrocedeu, trancou-se e ficou em p no centro da sala de estar.
Alternava-se entre dar tapinhas nas costas de Kathryn e enxugar as prprias lgrimas, que se recusavam a cessar.
Os dedos gordinhos de Kathryn agarraram o algodo da blusa de Sherry e os doces olhos azuis fitaram-na em completa e inabalvel confiana.
Sherry abraou Kathryn, sentindo o amor maternal desenvolvendo-se dentro dela. A emoo to rica, pura e indizvel, por um momento surpreendeu-a. Nunca imaginou que sentiria isso.
Jamais pensou que experimentaria de forma to profunda o amor por uma criana. Faria o que fosse preciso para proteg-la.
Acreditara que, por ser estril, tambm no possua instinto materno. Mas no era verdade.
O espanto foi seguido pela tristeza. Amava Kathryn. No breve espao de tempo em que estava com a menina, Kathryn conseguira um lugar espaoso em seu corao.
Mas a menina tinha uma mame em algum lugar e Sher-ry sabia que seu amor pela criana apenas faria com que sentisse mais tristeza.
Deu um pulo quando ouviu uma batida  porta.
	Sherry, sou eu.  Era Clint.
Sherry se apressou para deix-lo entrar.
	Viu algum?
Clint fez que no e colocou a arma no coldre. Sua expresso era sombria.
	Ningum. Embora seja bvio que tentaram entrar pela janela de meu quarto.  Passou a mo pelos cabelos e olhou para Kathryn, pensativo.  Se voc fosse entrar em uma casa para roubar, escolheria uma janela perto de um bero onde h um beb dormindo?
	Iria depender de eu querer roubar a residncia ou o nen.  Sherry falou o que, sabia, ambos estavam pensando.
Ao mesmo tempo, segurou Kathryn com mais fora, e a menina mexeu-se em protesto, dando chutes.
Clint estreitou o olhar e, mais uma vez, pareceu o homem mais perigoso do mundo.
	Se essa for a ideia de Candy de um bom jogo, juro que quando eu a encontrar torcerei seu pescoo.
A tenso suavizou um pouco.
	Deixe-me pegar Kathryn.  Clint beijou a menina na testa e colocou-a no cho, dando-lhe algumas chaves plsticas para brincar.
Em seguida conduziu Sherry at o sof. Sentou-se e puxou-a para perto de si.
Ela, de boa vontade, mergulhou no calor do peito largo, precisando daqueles braos fortes ao redor de si para sentir-se segura. Enlaou-o e encostou o rosto na camisa de algodo.
	Fiquei to apavorada! Abri a porta do quarto e vi a tela toda cortada... Se eu tivesse aguardado mais um ou dois minutos, Kathryn poderia ter sido retirada do bero! Sherry estremeceu de terror. Clint apertou-a com mais fora.
	Mas voc no esperou aquele minuto ou dois e tudo est bem. Kathryn est tima. Graas a Deus, as duas esto seguras.  Passou a mo pelos cabelos de Sherry e fez o polegar trilhar a lateral do rosto adorvel.  Sherry...
Falou seu nome com suavidade e ela o fitou, prendendo o flego. Clint ia beij-la. Sabia disso. A inteno cintilava em seus olhos de maneira indisfarvel. E ela no tinha inteno de cont-lo. Em vez disso, inclinou-se adiante, facilitando o acesso a sua boca.
Clint beijou-a nos lbios com delicadeza. Era um beijo hesitante, que a excitou. As batidas do corao aceleraram e Sherry entreabriu os lbios, permitindo que o beijo galgasse outro patamar.
Clint estremeceu quando sua lngua danou com a de Sherry. Chamas de desejo tomavam-na quando ela pressionou o corpo com mais firmeza contra a fortaleza mscula e perdeu-se no fogo dos carinhos.
O beijo podia ter durado segundos ou uma eternidade. Sherry perdeu a noo de tempo e espao.
As mos enormes moviam-se para cima e para baixo em suas costas, pressionando-lhe os seios com mais firmeza de encontro ao peito de Clint. Ela adorava sentir a musculatura slida contra suas curvas delicadas.
Queria que Clint a abraasse para sempre, beijasse-a sem parar. Gostaria que a despisse com lentido e ensinasse os segredos da arte de fazer amor.
Mas, em vez disso, ele interrompeu o beijo e levantou-se, abrupto. Afastou-se do sof antes que Sherry tivesse constatado seu afastamento.
	Tenho de dar um jeito naquela janela.
Sherry assentiu, no confiando na prpria voz. Temia tambm implorar para que voltasse para seus braos, abraando-a noite adentro, fazendo amor com ela at que o alvorecer invadisse o cu.
Assim que Clint a deixou, Sherry levantou-se, mal mantendo o equilbrio por causa das pernas trmulas.
Respirou fundo. Perdera a razo durante alguns minutos. Era o nico jeito de explicar o que acabou de ocorrer entre os dois. Insanidade temporria. Ambos haviam perdido a razo.
As emoes, potencializadas pela tentativa de roubo, e a sensao de iminente perigo, transformaram a situao em algo ainda mais perigoso. Sentia-se grata por Clint ter se afastado antes que os carinhos se tornassem trridos demais para serem contidos. No deixaria que aquilo se repetisse.
Virou-se e olhou para Kathryn, que brincava contente com as chaves plsticas. Poderia sobreviver  perda da menina, sabia que chegava a hora em que o beb no mais faria parte de sua existncia.
Todavia, no sabia se poderia sobreviver ao rompimento, caso se deixasse acreditar que poderia ter um futuro com Clint. Sabia muito bem qual era a verdade. No existia futuro para os dois juntos. Seria bom que ela se lembrasse disso.
Clint procurava um martelo e pregos atravs da miscelnea de itens que estavam na garagem. J havia localizado um grande pedao de madeira para cobrir a tela sobre a janela do quarto. Se algum tentasse entrar de novo, teria de usar um serrote.
Avistou um martelo e um copinho plstico cheio de pregos. Pegou-os e levou-os junto com a madeira para os fundos.
Ao observar a tela cortada, seu sangue pareceu gelar nas veias e a raiva voltou a aflorar. Era o xerife daquela cidade e parecia inacreditvel que algum tivesse tentado entrar em sua casa. O prmio devia ser bem alto para compensar o risco.
Kathryn... Parecia razovel acreditar que a pessoa que tentara entrar estava atrs da pequena Kathryn. Mas por qu? O bilhete que viera com a menina falava em perigo. Mas que espcie de perigo? Nada fazia sentido.
Colocou a madeira no lugar e comeou a martelar. Esperava que Stan conseguisse encontrar Candy. Todo aquele cenrio cheirava a manipulao dela em busca de um clima dramtico.
Entrara em contato com Stan naquela manh e dera-lhe todos os dados que tinha a respeito de Candy. Tinha esperana de que obtivesse alguma informao do paradeiro da moa no prximo dia ou dois.
Por que envolvera-se com Candy? Soube, desde o princpio, que ela no era seu tipo. Mas, durante o ms e meio em que namoraram, Candy preencheu os espaos vazios de sua vida. E amansou o sofrimento que experimentava desde o rompimento com Sherry.
Ainda tinha nos lbios o gosto da boca sedutora. Continuou martelando, usando mais fora do que a necessria na esperana de que o gasto de energia de alguma maneira pudesse diminuir seu desejo.
Terminou de colocar a proteo de madeira, mas relutava em entrar em casa. Sentia-se vulnervel diante da atrao por Sherry.
Precisava de um pouco mais de tempo e espao para absorver a realidade. E a realidade era que Sherry era uma amiga valiosa. Mas apenas isso.
Deu a volta na casa duas vezes mais, buscando sinais ou pistas que pudessem ajud-lo a descobrir o motivo de algum ter tentado entrar. Mas nada achou.
Os vizinhos de ambos os lados no puderam ajudar tambm. A residncia da esquerda estava vazia no momento. A da direita, ocupada por um casal de idade, que nada vira de suspeito.
Por fim, sentindo que suas emoes estavam controladas, tornou a entrar. Sherry e Kathryn estavam na cozinha, a menina na cadeirinha sobre a mesa de carvalho. Sherry fazia caf.
 Que bom! Eu gostaria de uma xcara!  Clint exclamou e acomodou-se.
Kathryn lanou-lhe um sorriso luminoso, e o corao de Clint aqueceu-se. A pessoa que estava atrs dela teria de passar por cima do cadver daquele papai antes de conseguir tocar em um fio de cabelo daquela criana.
Naquele momento, enquanto a menina brindava-o com um sorriso, Clint no teve dvida alguma de que Kathryn era sua filha. Tinha olhos azuis conforme os seus. At mesmo imaginava que o queixo quadrado era igual ao dele.
Kathryn tinha de ser sua. No a amaria com tamanha intensidade se no fosse. Era como se seu corao reconhecesse que a menina era uma parte dele.
	E ento, o que acontecer?  Sherry indagou, colocando uma xcara fumegante na frente de Clint.
Em seguida, sentou-se com outra na mo.
Ele sentiu-se mais tranquilo ao notar que nada havia naqueles olhos a no ser curiosidade. Nada de desejo, nem sinal da paixo que, momentos atrs, dominava os dois.
	No posso fazer muita coisa para apanhar a pessoa que tentou entrar aqui. Voc no viu ningum?
	No. A pessoa que estava ali deve ter percebido que eu abria a porta do aposento e fugiu. Decerto voc no acha que Candy est por trs disso tudo.
	No h nada que me faa acreditar no contrrio, Sherry. S posso ter estado maluco quando me envolvi com ela.
	Ns no nos apaixonamos pelas pessoas que queremos.
Clint deu uma gargalhada.
	Est falando de amor? Eu no amava Candy. No amei por um segundo sequer. Nem mesmo gostava muito dela.
	Ento por qu?  O olhar de Sherry pousou em Kathryn e depois nele.
	Por que fiz sexo com Candy se no a amava?
Sherry assentiu, enrubescendo. Clint tomou um gole de caf antes de responder.
	Porque queria ver se conseguia esquecer voc. Durante trs anos, esperei que mudasse de ideia, Sherry. Porm, quando percebi que isso no aconteceria, fiquei desesperado e tentei dar prosseguimento  minha vida.
Tantas respostas passavam pela cabea de Clint. Respostas que, bem sabia, no diria a ela.
	 possvel ter prazer fsico sem envolver nem a cabea nem o corao, Sherry.
	Mas por que Candy faria algo assim? Por que deixaria o beb aqui para, em seguida, tentar rapt-lo?
	Quem sabe?  Clint deu de ombros.  Talvez esteja tentando me dar o troco.
	Dar-lhe o troco? Por qu?
	Por ter sido capaz de separar as vontades do corpo das do corao. Por ter tido sexo com ela sem desejar compromisso.
Clint levantou-se, desconfortvel com aquela conversa. Era esquisito falar em fazer sexo com outra mulher.
	No sei, Sherry. Candy  uma mulher capaz de colocar laxante no caf de seu chefe se ele se recusar a dar-lhe um aumento. Quem pode saber como funciona seu raciocnio?
	Ela no fez isso  Sherry disse, incrdula.  Candy colocou laxante no caf do chefe?
	Sim. Contou-me isto na ltima noite em que samos. No telefonei mais para ela e, quando Candy me ligou, inventei desculpas a respeito do trabalho e de estar ocupado. Aos poucos, ela foi parando de ligar e eu nunca mais tive notcias dela.
Clint apoiou-se na porta da geladeira e suspirou.
	Candy gostava de pregar peas nas pessoas. Achava divertido. Pode estar achando a situao atual engraada. 
	No posso imaginar uma me achando a mais remota diverso em algo assim  Sherry ponderou, irada.  Conversou com Stan?
	Hoje de manh. Espero que em breve tenha algo para mim.
Sherry inclinou-se e fez um carinho na barriga de Kathryn.
	No se preocupe, meu doce. No vamos deixar que nada de ruim lhe acontea.
As feies de Sherry estavam suavizadas pelo sorriso amoroso enquanto brincava com o beb. Clint observava o subir e descer dos seios por debaixo da blusa rosa clara, lembrando-se de como eram macios de encontro a seu peito. A curva dos lbios evocou a lembrana de beijos temperados pelo desejo.
Clint deu as costas  cena, lutando contra a paixo que renascia. Colocou mais caf na xcara.
Quando virou-se, sentia que j recobrava a fleuma.
Uma coisa  certa, Sherry. Precisamos ficar atentos at sabermos o que est havendo. Devemos nos alternar para que Kathryn nunca fique sozinha. No poderemos deix-la s nem por um segundo.
Sherry assentiu.
	Verificarei todas as portas e janelas, mantendo-as trancadas quando voc no estiver aqui. E ela poder tirar sua soneca no cho da sala de estar.
	Amanh  meu dia de folga. Talvez eu deva instalar um sistema de segurana.
Estava furioso diante da ideia. Como algum ousava tentar invadir o santurio de seu lar... sua famlia?
Antes que pudesse dizer alguma coisa mais, o telefone tocou. Clint atendeu.
Era Andy.
	Chefe, est tudo bem a? Etta Mae falou que voc saiu daqui como se o diabo estivesse a seu encalo.
	Algum tentou invadir minha casa entrando pela janela de meu quarto. Mas tudo est bem.
	Uma invaso?! Quer que eu v at a para colher impresses digitais?
A voz de Andy mostrava uma excitao incomum a ele, quase sempre entediado. Parecia feliz com a perspectiva de ter um crime verdadeiro para investigar.
	Eu j reforcei a janela  Clint falou, sabendo como Andy ficaria decepcionado.  Mas, se quiser aparecer para dar uma olhada, talvez possa ver algo que no notei.
O xerife despediu-se, rpido, e desligou. Virou-se para Sherry.
	Andy est vindo para c para analisar a cena do crime.
	Acha que encontrar algo?
	No, mas estava to animado que no tive coragem de lhe dizer que duvido que encontre uma boa pista.
Sherry esboou um sorriso pleno e generoso que aqueceu-o dos ps  cabea.
	Voc  um bom homem, Clint Graham.
Seus olhos continham uma suavidade que o atormentava.
	Quando eu encontrar a pessoa responsvel por tudo isso, no serei to bonzinho. Vou l fora esperar por Andy.  Precisava escapar do confinamento da cozinha e dos tentadores olhos verdes de Sherry.
Quase duas horas mais tarde, Clint se despedia de um Andy desapontado. Conforme suspeitara, no havia nenhuma evidncia para o policial investigar.
Escurecia depressa. A noite invadiu o cu, roubando o ltimo brilho do lusco-fusco.
Enquanto o carro de Andy desaparecia rua abaixo, Clint observava os arredores apoiado na porta da garagem.
Noite. E Sherry estaria usando a camisola que ele sem querer contemplara... Uma camisola de seda com alas finas e decote provocante.
Sentiu-se excitar, em resposta.
Noite. E Sherry estaria dormindo em uma cama sob o teto dele. Mas no em seus braos.
Um simples beijo complicava seu relacionamento com Sherry...
Droga, a quem tentava enganar?!
No houve nada de simples no beijo.
Fora um terrvel engano!
O que incomodava-o mais era saber o quanto gostaria de repetir esse erro...

CAPITULO VI

Clint estava ao telefone quando Sherry entrou na cozinha, na manh seguinte. Ela encheu uma xcara com caf, tentando permanecer alheia  presena atraente e mscula.
A cala jeans moldava as pernas fortes, enfatizando o quadril estreito e bumbum bem formado. A camisa de manga curta deixava  mostra parte dos braos.
Ela levou a xcara  mesa, onde sussurrou um cumprimento matinal a Kathryn. A menina correspondeu, sorrindo. Ento, Sherry deixou a cozinha para que Clint pudesse falar com privacidade.
Na sala de estar, ficou defronte - janela, contemplando o brilhante sol matinal. Tomou um gole, os pensamentos vagando ao repassar os eventos da vspera.
Fora um dia cheio de emoes. Primeiro, o medo e o drama da invaso. Depois, a alegria e o desespero frente ao beijo de Clint.
Tocou nos lbios, a recordao ainda vvida como se a boca dele tivesse queimado a sua e deixado uma marca eterna.
Pensou que tivesse esquecido de como era bom beij-lo. Contudo, no instante em que se beijaram, foi como se Sherry estivesse voltando para casa aps uma longa ausncia.
 No se engane  sussurrou para si mesma, ao ir se sentar no sof.
O beijo de Clint podia ter o calor de um retorno para o lar, mas Sherry no se esqueceria de que jamais seria a mulher que ele merecia ter a seu lado. A volta para casa, na melhor das hipteses, seria temporria.
A noite anterior fora tensa. Ela e Clint assistiram  televiso durante algumas horas, deixando que notcias do mundo tomassem o lugar de uma conversa franca e esclarecedora.
Sherry sentara-se no cho perto de Kathryn, e Clint, no sof. Mesmo assim, com a adequada distncia fsica entre os dois, ela no pde distanciar-se mentalmente a ponto de sentir algum conforto.
O beijo alterara tudo, destruindo a camaradagem que costumava reinar entre os dois. Ela estava muito consciente da paixo que sentia.
Pela primeira vez, lamentou a virgindade e quis ser capaz de separar as vontades do corao das do corpo. Desejou poder ir para a cama com ele, sem arrependimentos na manh seguinte.
Mas no era assim.
Quando resolvesse se entregar a um homem, sabia que daria seus sentimentos tambm. Seria uma oferta eterna, no apenas prazer temporrio.
Sherry ouvira as principais manchetes do noticirio. Uma delas falava de um traficante poderoso que seria julgado em Kansas City. A segunda, a respeito do tempo ruim no oeste do Kansas.
Aps as duas reportagens, ela pedira licena e fora se deitar.
Para sua surpresa, dormiu muito bem, sem interrupes nem sonhos.
Acordou revigorada, sentindo-se capaz de encarar Clint sem fazer nenhuma tolice.
Ouviu-o desligando o telefone, e um momento mais tarde aparecia na sala de estar com Kathryn nos braos.
	Gostaria de um passeio de carro conosco?
- Para onde?
Sentou-se no sof a seu lado.
	Estava falando com Stan, que deu-me o novo endereo de Candy. Ela ainda mora em Kansas City.  Clint segurava um pedao de papel no qual anotara o endereo.  Que tal irmos at l para ouvir o que ela tem a dizer?
	A que horas?
	Agora. Quanto antes, melhor.
	Voc no devia tentar ligar para ela antes?
Clint fez sinal negativo com a cabea.
	Candy deve estar em casa no sbado, e eu no quero lhe dar nenhum aviso. No gostaria tambm de confront-la pelo telefone. Quero fazer isso pessoalmente.  Coou o queixo, pensativo.  Se partirmos agora poderemos parar no caminho para tomarmos caf da manh. Imagino que cafs da manh em restaurantes sejam to bons quanto os que voc prepara.
	Nunca preparei um desjejum para voc  ela protestou.
	Pois   rebateu, zombeteiro.
Sherry riu tambm, grata por a manh ter comeado em clima de amizade. Pelo jeito, Clint se esquecera do beijo, e ela pretendia fazer o mesmo.
	Est bem. Irei com vocs. Deixe-me apenas pegar minha bolsa e abastecer a sacola de Kathryn com tudo o que ela poder precisar.
	Como quiser. Eu vou instalar a cadeirinha no carro. Esperaremos voc l.
Sherry pegou a bolsa no quarto, fazendo uma pausa para avaliar seu reflexo no espelho. Passou a escova nos cabelos loiros e tirou um batom da bolsa.
	O que est fazendo?  indagou a seu reflexo, com o batom pronto para ser usado. 
Por que se pintar? Para seus lbios ficarem mais sensuais e dignos de outro beijo? De quem?
Beijar Clint fora um erro que no pretendia repetir. Esqueceria o ocorrido, e pronto.
Com renovada determinao, colocou o batom de volta na bolsa, sem us-lo. Ento, apressou-se para fora do aposento.
Minutos mais tarde, acomodava-se no banco de passageiro do carro de Clint, que estava atrs do volante. Kathryn, presa na cadeirinha instalada, batia palmas.
	Tudo em ordem?
Sherry assentiu, e partiram. Quando alcanaram a rodovia que ia para Kansas City, o movimento do carro j havia feito Kathryn adormecer.
Clint pareceu tenso, no incio, e seu olhar toda hora pousava no espelho retrovisor. Sherry constatou que procurava certificar-se de que no estavam sendo seguidos. Precisava ter certeza de que no haveria outra tentativa de rapto.
	Est tudo bem?  ela indagou preocupada, quando Clint mudou de pista pela quarta vez.
	Sim. Estou apenas sendo cauteloso.
Ele mudou de pista diversas vezes mais, sempre observando o retrovisor. Ento, aps vinte minutos de viagem, relaxou. Sherry fez o mesmo, acomodando-se no banco com mais conforto e observando a paisagem.
	No h nada mais bonito do que a primavera no meio-oeste  observou.
	A menos que seja outono.
	Tem razo, o outono  bonito tambm. Adoro o ar fresco e o cheiro de folhas.
E as noites frias pedem um aconchegoClint acrescentou. Seu olhar capturou o dela por um instante, logo retornando  pista.
	Sim, o outono  muito bomemendou, meio constrangida.
Sherry podia imaginar-se abraada a Clint sob o pesado edredom azul-marinho da cama dele. O calor de seu corpo forte manteria o frio da noite distante.
Ela admoestou-se novamente pela ousadia dos pensamentos.
	Isso foge ao assunto, mas ontem, quando voc estava l fora com Andy, telefonei para Walt para dizer que deixaria o emprego.
Clint arregalou os olhos e a fitou.
	Est brincando! E o que far? Voltar a lecionar?
	No sei. Pode ser. Para ser honesta, no tenho certeza do que pretendo. Apenas constatei que era hora de uma mudana.
Kathryn, em apenas trs dias, havia lhe ensinado uma lio valiosa: poderia passar algum tempo com crianas e am-las sem sentir a dor torturante da prpria infertilidade.
Tenho algumas economias, Clint. Posso parar para pensar e me decidir, com calma.
Clint sorriu para ela e afagou-lhe a mo.
	Fico feliz, Sherry. Nunca compreendi por que deixou de lecionar para ir trabalhar para Walt.
Ela assentiu e olhou janela afora.
Clint jamais compreenderia. Ningum entendeu a profundidade de sua tristeza. Sua me chorou com ela ao saber da infertilidade, mas com seu jeito pragmtico disse-lhe para superar a situao e dar prosseguimento  vida.
A irm de Sherry lidava com o assunto evitando falar sobre crianas.
E Clint dissera todas as palavras corretas: que aquilo no importava, que amava-a de qualquer maneira. Mas Sherry percebera o brilho momentneo de decepo em seu olhar e no pde ignor-lo.
No rompera o noivado logo aps descobrir que no poderia ter filhos. Aguardara um ms, um ms de agonia, ento disse a Clint que seus sentimentos haviam mudado e que no o amava mais.
No quisera a pena dele. No desejou revelar que fora a esterilidade a destruidora dos planos dos dois. Fora mais fcil fingir que cometera um erro quando declarou que o amava.
	Nossa, voc ficou to quieta!
	Estou apenas pensando...
	Em qu?
	Nada importante.
Clint desceu um pouco o vidro da janela, permitindo a entrada do ar fresco de primavera.
	Nesta poca do ano, sempre me lembro de quando nos conhecemos  disse Sherry.  Foi em um dia como este. Voc era o novo e atraente delegado da cidade, e eu tinha acabado de terminar a universidade.
	Eu no sabia se seria capaz de me adaptar a uma cidade pequenina como Armordale aps ter morado em Kansas City. Todavia, no instante em que a vi, soube que tudo daria certo. Era to animada e cheia de energia!
	E voc, to cheio de si, desfilando para l e para c com sua farda e observando todos com aquele olhar autoritrio.
	Eu no fazia isso!  Clint protestou rindo.
	Sim, fazia. Tinha aquela pose de duro, e todas as solteiras da cidade eram obcecadas por conquist-lo. E todos os homens estavam prontos para lhe dar um soco.
	J que trouxe este assunto  tona, parecia mesmo que muitos homens estavam com vontade de me esbofetear na quele primeiro ano. Admito que eu devia parecer um pouco arrogante, mas na verdade era uma defesa.
	Defesa? Mas por qu?
Fitava-o com curiosidade. A ideia de que Clint sentiu-se inseguro e vulnervel parecia estranha. Desde o momento em que o conheceu, ele sempre aparentou estar no controle, confiando em si mesmo e em suas habilidades.
	Eu tinha apenas vinte e trs anos e acabara de sair da academia quando o xerife Bodine me contratou. Ele tinha dvidas a meu respeito por causa de minha idade e inexperincia. Era muito importante que eu provasse que podia executar bem o trabalho. No apenas a todos em Armordale, mas sobretudo a mim mesmo.
	Seus pais morreram antes de voc se formar na academia de polcia, no  mesmo, Clint?
Em todos aqueles anos em que se conheciam, Clint nunca falou muito a respeito dos pais. Disse apenas que morreram em um acidente de carro pouco antes de ele mudar-se para Armordale.
	Sim, um ms antes da graduao.
Sherry percebeu que ele apertava o volante com fora, e suas feies estavam fechadas, proibindo-a de ir adiante no assunto.
Ficara imaginando se a reticncia de Clint em falar dos pais devia-se  tristeza por sua morte ou porque o relacionamento entre pais e filho fora negativo. Sabia apenas que quase nunca os mencionava.
	Est pronta para tomar caf da manh?
	Claro, boa ideia!
Em minutos, Clint e Sherry estavam sentados frente a frente em uma mesa. Kathryn brincava com uma colher, acomodada em um cadeiro.
	No posso acreditar no bom humor desta menina Sherry maravilhou-se.
Kathryn acordara assim que a levaram para dentro do restaurante, sorrindo de imediato.
	Ela puxou ao papai.  Clint piscou para a pequena.
Sherry imaginou o que Clint faria se descobrissem que a menina no era de Candy e, em consequncia, no era dele. Pressentia que ficaria com o corao em frangalhos.
Clint assumira Kathryn como sua filha de forma to plena que parecia ter afastado quaisquer dvidas a respeito da paternidade.
A garonete apareceu, uma mulher idosa cujo nome constante no crach era Alma. Estendeu-lhes os cardpios e fez alguns gracejos para Kathryn.
	E difcil dizer com quem ela se parece mais  Alma comentou.  Sem dvida herdou os olhos do papai, mas acho que talvez tenha o nariz da me.  uma boneca!
	Obrigado  Clint falou antes que Sherry pudesse explicar que no era me de Kathryn.
Fizeram o pedido, e a garonete desapareceu cozinha adentro.
	Acho que aparentamos ser uma famlia respeitvel, apreciando uma boa refeio. E engraado como as pessoas chegam a concluses.
Uma famlia respeitvel... Uma unidade familiar amorosa. Apenas uma iluso, Sherry teve de lembrar-se de novo e mais algumas vezes enquanto comiam.
Os dois se alternavam em alimentar Kathryn, alegrando-se quando a menina aceitava a comida oferecida e rindo quando cuspia o que no gostava.
Poderia ter sido assim, Sherry pensou com amargura. Poderia ter sido. Ela e Clint estariam casados e com um filho. Era tudo o que sempre sonhou e quis... e justo o que o destino cruel lhe roubou.
Tentou dissipar os pensamentos negativos. Tomara uma deciso consciente cinco anos atrs. Deixara Clint livre para realizar os sonhos dos quais um dia ela participou.
No havia retorno para os dois... nem um caminho adiante. Jamais poderia gerar filhos e, depois de ver Clint com Kathryn, nunca lhe pediria para sacrificar a alegria da verdadeira paternidade.
No, jamais partilhariam a vida. Mas isso no significava que no houvesse outras opes para ela. Foi quando surgiu uma esperana.
Terminaram de comer e ficaram tomando apenas caf, como se relutando em prosseguir com a jornada. Estavam ambos extremamente conscientes de que o trajeto poderia terminar com Kathryn sendo devolvida  me.
O tema da conversa vagou. Falaram de Walt e Betty discutindo por causa de Rover. Comentaram tambm sobre a paixo de Andy por Ramona Baker, a jovem que havia pouco comprara a floricultura.
Quando o silncio caiu entre os dois, Sherry revelou o pensamento que lhe ocorrera minutos antes.
	Quando a situao de Kathryn estiver resolvida, acho que tentarei adotar uma criana. Pelo que sei, esto permitindo, agora, que pessoas solteiras faam isso.
Clint franziu a testa e fez um sinal para que a garonete trouxesse a conta.
	Sabe que eu nunca fui muito favorvel a adoo, Sherry.
Preferiria no ter filhos a adotar um. Mas faa o que for melhor para voc.
Clint pareceu se fechar, trancafiando as emoes. Assim como anos atrs, quando tiveram um discusso terica a respeito dos mritos da adoo.
A conversa ocorrera antes de Sherry descobrir que no poderia gerar. Falara a Clint que gostaria de ter dois filhos e adotar outros dois. Fora quando ele lhe dissera que jamais considerara a possibilidade de adotar.
Clint foi at o caixa pagar a conta, enquanto Sherry limpava o rosto e as mos de Kathryn com um guardanapo mido. Ao terminar, olhou para ele e, naquele instante, constatou o motivo de ter trazido  tona aquele assunto.
Fora uma ltima tentativa para ver se havia alguma esperana de um futuro para eles. Ao pegar a menina no colo, uma estranha tristeza parecia querer dilacerar seu peito. Algo que ela imaginou ter resolvido muito tempo atrs.
Amava Clint. A emoo revelou-se com inesperada clareza. Nunca deixou de am-lo. Apesar de no desejar, guardou Clint em seu corao durante todos aqueles anos.
Abraou Kathryn. Como, aps tanto tempo, ainda sentia tamanha infelicidade?
Era a confirmao de que ela e Clint nunca, jamais, poderiam ficar juntos.

CAPITULO VII

Logo chegariam a Kansas City. Clint sentia dor no estmago, e seus nervos estavam  flor da pele.
Sherry nada falou desde que deixaram o restaurante onde tomaram o desjejum, como se algo importante ocupasse seus pensamentos.
O perfume floral e feminino dominava o carro. Clint pensou no brilho dos belos olhos verdes, no riso e animao de Sherry enquanto faziam a refeio com Kathryn.
Era um absurdo que ela no pudesse gerar. Seria uma me maravilhosa. Tinha o dom do riso e uma profunda dose de amor para partilhar. Mas no com ele, procurou recordar.
Saber que Sherry pretendia adotar uma criana fora um chacoalho necessrio nos sentidos de Clint, lembrando-o de que os assuntos "crianas e famlia" e "ele e Sherry" pertenciam a mundos distantes.
Sherry sabia como Clint se sentia em relao  adoo. Fora assunto de uma discusso acalorada, no passado. Por isso, sua deciso de ter um filho adotivo s servia para faz-lo ver que ela no o queria em sua vida de maneira permanente. Amava-o como amigo, e isso era tudo.
Clint franziu a testa e segurou com mais fora o volante.
Entretanto, um amigo oferecia a outro amigo um beijo to faminto e provocante?
Fitou-a de soslaio. O sol de fim de manh acrescentava mechas douradas aos cabelos louros. Seus dedos quase doam com a vontade de tocar nos fios macios.
Sherry usava cala jeans e suter vermelho e branco. Pareceria calma e tranquila para qualquer observador desatento. Mas no estava. O rosto tinha expresso tensa, e quando seu olhar capturou o dele, Clint viu uma tristeza pesarosa atormentando-a.
	Voc est bem?
	Creio que comi demais.  Sherry sorriu.
Mas o sorriso estava desprovido de alegria. Sherry logo se voltou para a paisagem.
	Meu estmago di.
	O estmago ou o corao?
Ela fitou-o com aspereza.
	Dor no corao? Por que acha isso, Clint?  indagou, na defensiva.
Clint deu de ombros e acionou a seta para indicar que tomaria a prxima sada.
	Sei que faz apenas alguns dias, mas vi o quanto Kathryn cativou-a. Tenho certeza de que est magoada, pois sabe que talvez tenhamos de entreg-la de volta  me.
Sherry relaxou e virou-se para olhar a garotinha, que brincava no banco traseiro.
	Sim, Kathryn me conquistou, assim como fez com voc.
Clint assentiu.
	Fez mais do que me conquistar. Tornou-se a dona de meus sonhos, que eu nem imaginava possuir.
O deslumbramento que acompanhava-o desde o instante em que reconheceu a possibilidade daquela menina ser sua dominava-o to completamente que nem lhe ofertava palavras para expressar seus sentimentos.
Sherry estendeu a mo e tocou-o no ombro.
	Se for mesmo o pai de Kathryn, Clint, ela  uma garotinha de sorte.
Se. Um termo que continha todo o possvel e o impossvel. Nem mesmo gostaria de considerar a possibilidade de Kathryn no ser sua.
Como Sherry nunca geraria filhos, jamais viria a experimentar o amor profundo que Clint sentia por Kathryn. Isso deixava-o com o corao partido, solidrio aos sentimentos dela. A adoo de uma criana no seria o mesmo porque aquela pessoa no estaria carregando seus genes.
	Se Candy for me de Kathryn, ento terei uma conversa bem dura com ela antes de lhe devolver a menina. Preciso me certificar de que nunca mais far algo assim.
 Clint meteu a mo no bolso e pegou o pedao de papel que continha o endereo de Candy.  O prdio deve ser logo adiante. H diversos edifcios nesta quadra, por isso teremos de prestar bastante ateno.
Ele reduziu a velocidade.
	Ali.  Sherry apontou.
Clint estacionou e desligou o motor. Por um instante, ficou sentado olhando para o prdio de apartamentos onde Stan dissera que Candy morava.
Nos prximos minutos, sua vida mudaria para sempre. Saberia se Kathryn era sua filha ou no. Em um instante, ocorreram-lhe vises de visitas de finais de semana, idas ao parque, beijos semanais, aulas de bale e vestidos com bordados.
Respirou fundo e abriu a porta do automvel. Sherry tambm desceu e pegou a sacola do beb, enquanto Clint tomava Kathryn nos braos.
A garota riu e apertou-lhe o nariz. Clint livrou-se dos dedinhos e abraou-a com fora. Sentiu o perfume de beb e de inocncia, e o amor protetor causou-lhe uma pontada lancinante no peito.
	Vamos terminar com isso  falou a Sherry, que aquiesceu e se ps a caminhar a seu lado.
Juntos, entraram no edifcio e foram para os elevadores.
	Espero que, sendo sbado de manh, Candy esteja em casa.
	Qual o andar?  Sherry indagou quando entraram no elevador.
	Sexto. De acordo com Stan, Candy mora no 603.
Sherry apertou o boto. O trajeto para o sexto andar transcorreu em silncio. At mesmo Kathryn estava quieta, como se pressentindo algo.
Quando o elevador alcanou o sexto piso, a porta abriu e eles saram. Bem  frente, o apartamento 603.
Clint no hesitou. Como estava ali diante da porta que lhe daria as respostas que buscava, sentia-se ansioso por terminar com todo o mistrio. Tocou a campainha e olhou para Sherry.
Ela segurava a sacola com fraldas de encontro ao peito. Retribuiu o olhar, e em seu rosto Clint viu expressa a amizade imensa e o profundo apoio com que vinha contando ao longo de anos.
Tambm contemplou a tristeza de uma mulher que passara a amar uma criana, e podia ter de cortar o lao que nascera entre as duas.
Constatou que, no decorrer dos ltimos dias, tanto ele quanto Sherry viviam uma fantasia... dividindo as alegrias da paternidade. Tambm notou que a desistncia de Kath-ryn seria to difcil para Sherry quanto para ele.
Bateu mais uma vez  porta e estendeu a mo para pegar a de Sherry. Queria apoi-la e precisava do calor do contato fsico para si tambm.
	Espere!  uma voz feminina familiar gritou de trs da porta.
Houve o som de uma tranca sendo removida, e a porta abriu.
Candy estava com a mesma aparncia da qual Clint se recordava. Cabelos platinados muito bem arrumados e sombra muito forte nas plpebras para contrastar com as ris azuis.
	Clint!  Fitou-o surpresa.  O que faz aqui?
Virou-se para Sherry.
	Voc  Shirley, no  mesmo?
	Sherry  corrigiu-a, seca.
Sherry soltou a mo que Clint segurava e deu um passo para trs, como que no querendo ficar muito perto da mulher que ela havia descrito como "devoradora de homens".
	Ah... sim, Sherry. O que est acontecendo?
Candy olhava de um para outro, sua bvia confuso parecendo genuna.
	Que lindo beb! E seu, Sherry?
	Na verdade, pensamos que a garotinha pudesse sersua  Clint disse, categrico.
Candy arregalou os olhos.
Minha?!
Candy ergueu as mos de unhas longas e pintadas de um vermelho vivo, combinando com o batom.
	E por que imaginou algo assim, Clint?
	Kathryn foi deixada em minha varanda vrios dias atrs, com um bilhete que indicava que eu era o pai. Ela... bem... sua concepo teria ocorrido mais ou menos na poca em que eu saa com voc. Desse modo, conclu que talvez...
	Oh, por favor!  Candy sorriu, divertida. - No sou grande apreciadora de crianas, e a ltima coisa que faria seria ter um filho. E melhor dar uma boa verificada em sua caderneta, querido... para ver com quem mais saa naquela poca...
Clint acreditou nela. Candy jamais resolveria ter um beb. Uma criana requeria amor e cuidados, e Candy estava ocupada demais amando e mimando a si mesma.
	Desculpe-me o incmodo.  Clint virou-se e apertou o boto do elevador.
	Clint?
	Sim?
	Est com a aparncia tima. Se um dia quiser reviver nossos bons momentos, bastar me telefonar.
	Obrigado, Candy, mas acho que no dar certo. Uma fase com voc foi mais do que suficiente para mim.
Candy estreitou o olhar e, zangada, bateu a porta do apartamento.
	No posso acreditar que um dia namorei essa mulher  Clint falou enquanto entravam no elevador.  Por que voc no me internou em uma instituio para doentes mentais quando comecei a v-la? S podia estar maluco!
Observou Kathryn em seus braos. A filha no era sua, e sim um nen abandonado. Uma estranha.
	Voc  um garoto crescido. Alm disso, ningum apontava uma arma para sua cabea.
Nada mais conversaram enquanto deixavam o prdio e voltavam ao carro. Clint colocou Kathryn na cadeirinha, o corao repleto de uma dor diferente.
Kathryn no era sua filha. O beb que conquistara seu corao no era seu. No haveria visitas nos finais de semana, idas ao zoolgico ou aulas de bale. Nada de beijos molhados e surpresas no Dia dos Pais vindas de Kathryn.
Girou a chave na ignio e olhou para a direita. Sabia que a perda tornaria-se mais suportvel se Sherry o amasse. Se fosse dono do corao dela, o espao vazio em seu peito seria bem menor.
Mas Sherry no o amava. Por isso nunca se sentira to s.
Clint estava silencioso no trajeto para casa. Sherry tentou por diversas vezes pensar no que dizer. Palavras de conforto e apoio. Mas a cada vez em que se virava para fit-lo, a tristeza no belo rosto fazia com que permanecesse calada.
Clint sempre foi um homem reservado. Embora generoso por natureza, Sherry aprendeu h muito tempo que mantinha as emoes bem guardadas, compartilhando poucos sentimentos.
Um ano atrs, quando o melhor amigo dele em Armordale morreu em um trgico acidente de carro, Sherry foi ao funeral com Clint. Vira a dor em suas feies, mas ele se recusara a falar do que sentia e no buscou conforto em seu abrao.
Ocorria o mesmo atualmente. Notava que ele se fechava e Sherry lutava contra a prpria necessidade de confort-lo.
Como devia ser terrvel acreditar que aquela linda criana que alimentara seus sonhos, suas esperanas, seu corao e sua alma, poderia deixar de ser sua.
De alguma maneira a dor de Clint era ainda pior do que a de Sherry. Assim que soube que no poderia gerar filhos, no houve esperana a provoc-la, nenhuma possibilidade de sonhos tornarem-se realidade para atorment-la.
Aguardou at estarem chegando a Armordale antes de romper a quietude.
	E agora, o que faremos a respeito de Kathryn?
	Acho que terei de entrar em contato com o Servio Social, na segunda-feira.
	No ouse, Clint! No deixarei que faa isso!
Ele fitou-a de soslaio.
	Mas voc disse que me ajudaria apenas por trs dias, Sherry.
	Bem, eu menti.  Estendeu a mo, pousando-a no ombro de Clint.  Olhe, apenas porque descobrimos que ela no  sua no significa que estejamos dispostos a jog-la ao sistema.
	No quero entreg-la ao sistema, tambm  Clint afirmou, aps um instante de hesitao.  Mas por quanto tempo poderemos manter este arranjo? Por quanto tempo voc deseja deixar sua vida em compasso de espera?
	Quanto for necessrio. Estarei disponvel enquanto Kathryn precisar de mim.
Aprumou-se e mais uma vez olhou para Clint.
	Alm do mais, no bilhete a me disse que voltaria para a filha em uma ou duas semanas. S faltam alguns dias. Na certa voc poder sobreviver tendo-me como sua hspede mais um pouco.
Nenhum brilho de humor iluminou a expresso de Clint. E ele no emitiu nenhuma resposta.
Sherry calou-se, o corao dolorido pela mgoa que ele devia estar sentindo. Pelo menos tinha o consolo de que, embora Kathryn no fosse sua filha, ainda assim poderia ser pai.
Percebeu que o beb abrira o corao dele, e a paternidade temporria deixou-o ansioso por se casar e principiar uma famlia.
De novo uma pontada melanclica. Dessa vez no era reflexo do sofrimento de Clint, mas a angstia profunda de seu amor por ele. Um amor que para sempre permaneceria trancafiado em seu corao.
Sabia que acabaria passando a existncia toda amando Clint. E ele, por sua vez, estaria com alguma mulher de sorte, fazendo bebs e realizando seus sonhos com ela.
Com os olhos rasos d'gua, olhou para a paisagem e passou a mo no rosto. Fora sincera ao falar que permaneceria na casa dele enquanto Kathryn precisasse de sua ajuda.
Mas, quando a me da menina viesse busc-la, e Kathryn no mais fizesse parte de seu dia-a-dia, Sherry sabia de uma das mudanas que teria de fazer em sua vida.
Passaria a ver menos Clint. Seu amor por ele era to forte e vivo que obrigava-a a tomar essa atitude difcil. Teria de afrouxar os laos da amizade porque sabia que no suportaria continuar sendo sua amiga sabendo que jamais participaria de verdade de seu futuro.
	Tenho algo a confessar.  Clint estacionou diante de sua casa.
Sherry procurou engolir o pranto e o encarou, surpresa.
	Que espcie de confisso?
	Na verdade, no fui muito eficiente na tentativa de descobrir quem Kathryn . Estava to certo de que era filha de Candy que no gastei muita energia buscando outras respostas.
Desligou o motor e alisou os cabelos.
	Ento, o que tem em mente?
	Talvez eu deva verificar no hospital de Armordale quais bebs nasceram de cinco a sete meses atrs e quem so os pais. Faz sentido que a me more aqui.
	Faz? Por qu?
	A me sabia que eu era o xerife.  bvio que deixou Kathryn aqui porque achou que poderia proteg-la da pessoa que est em seu encalo.  Franziu a testa, pensativo.   possvel que estejamos lidando com um caso de custdia. Talvez tenha sido o pai de Kathryn quem tentou roub-la.
	Isso tem lgica...
Parecia menos terrvel imaginar que Kathryn quase tivesse sido raptada por algum que a amava.
	Acho que passarei a tarde fazendo alguns telefonemas para ver o que consigo descobrir.  Clint desceu do veculo, abriu a porta traseira e desafivelou o cinto de segurana de Kathryn.
A menina acordou e presenteou-o com um sorriso feliz.
Sherry notou as feies de Clint enrijecerem. Suspirou e seguiu-os para a residncia, imaginando como Clint e ela sobreviveriam  perda de Kathryn.
A tarde estava sombria. Ele passou o restante do dia ao telefone enquanto Sherry tentava tranquilizar a inquieta Kathryn.
Era como se a menina sentisse a tristeza que tomara conta da atmosfera reinante.
Sherry tentou dar-lhe uma mamadeira e depois nin-la para que dormisse. Caminhou com a menina, cantou, mas nada parecia acalm-la. Enfim, Sherry sentou-se no cho da sala de estar e tentou brincar com Kathryn. Mas ela no queria. Afastava os brinquedos que lhe eram dados, o lbio inferior tremendo com a ameaa de lgrimas.
Sherry olhou para cima quando Clint entrou na sala com um pedao de papel na mo.
	Bem, conversei com o responsvel pelo hospital e obtive o nome de todas as mulheres que tiveram crianas mais ou menos naquele perodo de tempo.
Sentou-se no sof. Kathryn fez uma careta e comeou a chorar, com ansiedade.
	O que h de errado com ela, Sherry?
	No sei.  Levantou-se e pegou a menina no colo.  No consigo fazer nada capaz de acalm-la.
Com certa relutncia, Clint estendeu os braos.
	Deixe-me tentar.
Kathryn foi de boa vontade para seus braos e aconchegou-se ao peito largo como se fosse seu lar. Com um suspiro de resignao, Clint deu-lhe tapinhas no bumbum e quando olhou para Sherry, seus olhos azuis irradiavam angstia.
	Quis tanto que ela fosse...
Sherry sentou-se a seu lado.
	Eu sei. - Passou um dedo pelo queixo de Clint, desejando ser capaz de consol-lo.
Ele pousou o brao sobre seus ombros e puxou-a para perto. No havia nada de ameaador naquele abrao, nem uma chama do desejo que os incendiou quando se beijaram. Eram dois amigos em silncio, dividindo emoes e oferecendo conforto.
Kathryn dormiu de encontro ao peito de Clint. Sherry fechou os olhos e deixou que o calor e perfume familiares de Clint abraassem-na.
No queria pensar no que jamais aconteceria. No contemplaria o fato de que, quando tudo estivesse resolvido em relao a Kathryn, ela pretendia dar prosseguimento  vida sem a amizade de Clint para sustent-la.
Sherry perdeu a noo do tempo, embora talvez pudesse ter adormecido no abrigo daqueles braos.
	Quer fazer outro passeio de carro comigo?
A voz rouca resgatou-a da semiconscincia.
	Para onde?
Sentou-se, a lateral do seu corpo fria devido  ausncia de Clint.
	Vamos verificar se as pessoas desta lista esto com seus bebs.
	Est bem.
Sherry notava que aps ter descoberto que Kathryn no era sua filha, Clint j no relutava em procurar pelos pais da menina.
Pouco tempo levaram at voltarem ao carro. Sherry leu o primeiro nome da lista em voz alta.
	Betty Miller.
	Pode riscar  Clint instruiu-a.  Vi Betty e seu marido empurrando o carrinho de beb pela rua principal anteontem.
Sherry obedeceu.
	Rita Clemmons. No  a esposa do pastor Clemmons?
	Sim, acho que .
	Evidente que no abandonariam o beb diante de sua porta.
	Talvez no. Mas temos de verificar todas as possibilidades. Passaremos na residncia deles para ver se a garotinha ainda est sob sua custdia.
Qualquer trao de uma emoo anterior fora banida. Era como se Clint com sucesso tivesse removido todos seus sentimentos.
Sherry sentiu inveja. Como desejava poder fazer o mesmo, no apenas tirando do peito a dor do amor por Kathryn, como tambm a gigantesca angstia de amar Clint!
A resposta quanto aos Clemmons estarem com seu beb ou no logo foi elucidada. Ao passarem pelo lar asseado, viram a famlia no jardim. Rita Clemmons segurava a filha no colo, enquanto o pastor Clemmons trabalhava em uma floreira.
Sherry e Clint acenaram para o casal e seguiram adiante. Ento Sherry olhou para o ltimo nome da lista.
	Molly Ketchum. Acho que no a conheo.
	Tem apenas dezoito anos de idade e era a nica pessoa solteira que tivera um beb naquela poca em particular. Mora com os pais na rua Oak.
	Como sabe disso?
	Quando telefonei para o hospital, conversei com Tracy Witfield.
Sherry riu.
	No precisa explicar mais nada.
Tracy Witfield conseguia saber de detalhes da vida de todas as pessoas da pequenina cidade, fossem detalhes pblicos ou particulares.
	O fato de voc estar morando em minha casa durante os ltimos dias gerou muicos comentrios  Clint acrescentou.
Sherry resmungou, aborrecida. Nem havia cogitado sobre o que as pessoas poderiam estar dizendo.
	Tracy me contou que Fred est fazendo uma aposta na barbearia dele. A pessoa que acertar a data exata em que voc e eu nos casaremos ganhar cortes de cabelo gratuitos para sempre.
	Pois Fred no ter de se preocupar em pagar esta aposta.
	Sim... eu acho.
Clint no olhou para ela, e Sherry julgou ter notado um toque de pesar. Mas por qu? Porque no se casariam? Clint no a amava, no realmente. Nem mesmo tentou beij-la mais uma vez aps aquele beijo no dia que a casa quase foi invadida.
Ficou imaginando se ele um dia a amou conforme queria e precisava ser amada. Afinal, sempre foi Clint quem deu um jeito de interromper os beijos e carcias. Sempre fora ele quem manteve o controle, impedindo-os de fazer amor. Porque sabia o quo era importante para ela permanecer virgem para a noite de npcias dos dois.
Talvez nunca a tivesse amado com o desespero e paixo com que Sherry o amou. Tornou a aconselhar-se a se afastar de Clint assim que a histria de Kathryn fosse resolvida.
A amizade tornara-se uma ameaa. O companheirismo diminura sua solido e preenchera horas vazias. Sherry no precisara namorar ou encontrar um namorado porque tinha Clint em sua vida.
Kathryn de alguma maneira conseguira abrir seu corao, derretendo a barreira de gelo. Sherry foi obrigada a reconhecer que ainda amava Clint. Mas sabia que era hora de seguir adiante.
Chegaram  residncia dos Ketchum, e Clint explicou a situao  me de Molly. A mulher de idade chamou a moa, e Molly saiu do quarto carregando uma garotinha de cabelos e olhos escuros, e que devia ter mais ou menos a idade de Kathryn.
Clint lhes agradeceu pela ateno, e, minutos mais tarde, Sherry, ele e Kathryn estavam de novo no carro.
	E ento, o que faremos agora, Clint?
	Creio que devemos apenas manter Kathryn em segurana e aguardar para ver o que acontece.
Durante os dias seguintes o xerife foi para o trabalho todas as manhs, e Sherry cuidava de Kathryn. A noite, dividiam a responsabilidade com a menina.
Era a maneira como ocorria antes de irem at Candy, mas com alguma mudana.
Sherry tentava manter a mxima distncia emocional e fsica de Clint.
Observava-o tentar, em vo, distanciar-se da garotinha. Ele voltava para casa do trabalho, e a menina se debatia at que Clint a tomasse nos braos e brincasse com ela.
Sherry nunca o amou tanto quanto nos momentos em que o via ninando Kathryn ou fazendo caretas tolas apenas para ouvir seu riso. O amor que invadia seu corao apenas servia para confirmar a deciso em banir Clint de sua vida de uma vez por todas.
Assim que Kathryn fosse devolvida a sua famlia, Sherry passaria a estar indisponvel para Clint. Estaria ocupada quando ele a chamasse para comer pizza, teria outra coisa para fazer quando Clint a convidasse para almoar.
Um dia ele deixaria de telefonar e de fazer convites. E os dois passariam apenas a ser meros conhecidos que dividiram parte do passado.
Mesmo sabendo disso, ela no deixava de sentir um frio no estmago toda vez que o fitava. Se no fosse to atraente e no tivesse aqueles olhos azuis capazes de captur-la... E a fora dos traos msculos, do sorriso suave? Ah, se seus ombros no fossem to largos e os quadris estreitos. Se ao menos Clint no fizesse seu corpo arder toda vez que a fitava.
Ficara brava com ele diante do pedido de ajuda. Temeu no ser capaz de cuidar de uma criana sem sofrer. De amar uma menina sabendo que jamais seria sua. E Sherry nem havia considerado a tortura real de estar perto de Clint, amando-o e sabendo que jamais lhe pertenceria.
Era incio da noite de quinta-feira, e, como sempre, estavam todos na sala de estar. Clint comprara um pacote de grandes blocos plsticos e estava sentado no cho, construindo uma torre de blocos, para deleite de Kathryn.
O beb observava-o com ateno, no tentando juntar-se ao processo, mas aguardando... esperando. E quando a torre desabava a um toque seu, as gargalhadas dela enchiam a sala, mescladas  risada robusta de Clint.
Sherry ficou imaginando se seria possvel am-lo ainda mais. Achava que no. Seu amor por ele transcendia tudo o que j experimentou antes. No conhecia limites ou condies. Apenas estava ali, alimentando-a com alegria e dolorosa lamentao.
Era fcil imaginar uma existncia toda de noites como aquela, observando Clint e Kathryn juntos. Noites em que ele colocaria a menina na cama e entoaria canes de ninar. Noites em que Clint e ela iriam juntos para a cama renovando a paixo e amor que sentiam um pelo outro.
Talvez a me de Kathryn nunca mais retornasse. Ento poderiam ficar com a menina, criando-a como sua, dividindo no apenas sua presena como tambm a vida um do outro.
Era uma fantasia tola. Se a me de Kathryn no voltasse, ento Clint a deixaria aos cuidados do Servio Social. Havia lhe dito que nunca considerara adotar uma criana, ento no gostaria de ficar com Kathryn e cri-la, pois seria a mesma coisa que uma adoo.
Sherry nunca compreendeu seu ponto de vista quanto  adoo e nunca foi capaz de fazer com que explicasse a fundo o motivo de sua negativa to veemente. Clint deixara claro que no aprovava, mas nunca exps as razes de sentir-se assim.
Aquele assunto dizia muito a respeito da impossibilidade de darem certo juntos.
Passava pouco das oito horas quando Sherry deu cereais a Kathryn e depois uma mamadeira. Ao trmino, Clint tomou nos braos a criana sonolenta.
	Vou coloc-la no bero.
Sherry assentiu, sabendo que isso significava que Clint passaria o restante da noite no prprio quarto. Ainda estavam atentos  regra de que Kathryn no permaneceria sozinha em lugar algum. Nenhum dos dois se esquecia de que em algum lugar havia uma pessoa que queria a menina.
Kathryn e Clint desapareceram nos aposentos dele, e Sherry tornou a sentar-se no sof, ligando a televiso. Assistiria a algum programa at ficar cansada o bastante para dormir e no sonhar com ele.
Acabava de interessar-se por uma srie a respeito de dramas mdicos quando a campainha tocou. Sherry pulou do assento, desejando abrir a porta antes que Kathryn acordasse.
Abriu-a e viu-se diante de uma jovem loira e atraente. Os vvidos olhos azuis s arregalaram quando fitou Sherry.
	Quem  voc?  indagou a moa.  Onde est Dave?
	No h nenhum Dave aqui. Deve ter obtido o endereo errado.
	Nada disso.  Ela comeou a chorar.  Oh, meu Deus, o que aconteceu? Onde est Kathryn?
Onde est meu nen? O que voc fez com ela?!

CAPITULO VIII

Clint ouviu a campainha e Sherry atendendo a porta. No instante em que escutou a mulher dizendo o nome de Kathryn, soube quem era e o motivo de estar ali.
Olhou para a garotinha, que dormia em paz no bero.
No pretendia entreg-la  estranha sem uma explicao convincente dos motivos do abandono temporrio. Aquela doce menina no merecia menos.
Deixou o quarto, com Kathryn dormindo no bero certo de que estaria segura. A janela ainda estava com as madeiras pregadas, tornando impossvel que algum entrasse sem fazer barulho.
	Estamos com sua filha  Sherry explicou para a moa, que chorava.  Est no outro quarto.
	Graas a Deus! Ela est bem?  A mulher agarrou a manga da blusa azul-clara de Sherry.  Por favor, pegue-a para mim!
	Sherry, deixe que eu lide com isso.
Clint passou por Sherry e escancarou a porta, para que a jovem entrasse na sala de estar.
	Sente-se.
	No quero me sentar. Quero apenas minha filha!  Enxugou os olhos, um brilho de raiva impaciente cintilando por entre as lgrimas.  No sei o que est acontecendo, nem o que fizeram com Dave, mas quero minha filha de volta agora!
	Voc no est em posio de fazer exigncias. E agora, sente-se!  Clint falou com autoridade.
Para sua surpresa, viu Sherry e a moa obedecendo-o. Por um longo instante ficou encarando a suposta me de Kathryn.
Era pequenina e magra, com enormes olhos azuis e cabelos louros na altura dos ombros. Parecia jovem e no usava aliana.
Clint aproximou-se da pequena mesa perto da porta frontal, pegou seu distintivo e jogou-o no sof, bem perto da moa.
	Sou Clint Graham, xerife de Armordale. Vou lhe dizer agora, senhorita, que, a menos que tenha boas respostas, este beb no ir a lugar algum com voc. E agora, comecemos com seu nome.
	Mandy... Amanda Jenkins. Sou de Kansas City.  Um soluo escapou por entre seus lbios.  Por favor, eu poderia v-la... apenas abra-la? Esta ltima semana sem Kathryn pareceu uma eternidade.
Antes que Clint pudesse responder, Sherry j se levantava.
	Voltarei logo  murmurou e desapareceu pelo corredor.
Clint sabia que ela ia buscar Kathryn. Se no fosse, ele teria ido. A tristeza de Mandy era visvel, quase tangvel.
Sherry demorou alguns minutos para retornar. Abraava Kathryn, que ainda estava adormecida, de encontro ao peito.
Clint sabia como estava sendo difcil para Sherry e culpou-se por t-la envolvido. A ltima coisa que desejava era faz-la sofrer.
Sherry transferiu o beb para a me. Mandy abraou Kathryn, passou a mo por sua testa e costas. O pranto escorria, abundante. Abraou o nen como se temendo que Clint e Sherry pudessem tom-la.
	E agora diga-me: quem  esse Dave por quem perguntou?  Clint indagou depois de dar-lhe diversos minutos para absorver o retorno da filha.
Sherry voltou a sentar-se.
	David Freeman. Ele morou aqui.  o pai de Kathryn.  Olhou para a criana, que dormia em seus braos.  Deixamos de nos ver logo depois que descobri que estava grvida. Dave no estava interessado em ser um marido e, muito menos, em ser papai.
	No compreendo. Por que deixou Kathryn aqui, onde julgava ser a casa de Dave?  Sherry quis saber.
	Porque no sabia mais que atitude tomar.
Mexeu o corpo para a frente e para trs, como se confortando o beb adormecido, mas Clint suspeitava de que tentava acalmar a si mesma.
	Precisava que minha filha estivesse em um lugar onde eu soubesse que estava segura, onde eles no pudessem encontr-la. Como no via Dave fazia muito tempo e no coloquei seu nome na certido de nascimento, achei que Kathryn estaria segura com o pai.
	Segura de qu? De quem?  Clint ocupou a poltrona oposta ao sof.
A moa ficou imvel e suspirou.
	Tudo comeou quando fui convocada para participar de um jri em Kansas City.  a cidade onde moro. Diversos amigos meus j haviam participado de jris antes, e no parecia ser algo complicado. Achei que poderia ser at interessante, mas nem fazia ideia de que minha vida viraria de cabea para baixo e passaria a correr perigo.
	Que espcie de julgamento foi este?  Sherry indagou.
	Eu estava no jri que apenas uma hora e pouco atrs condenou Maxwell Boothe.
	Oh, eu li a respeito desse julgamento! Ele no  uma espcie de chefe do narcotrfico?  Clint a encarou.
Todas as noites o noticirio relatava uma posio atualizada do julgamento do poderoso e rico homem que j fora indiciado diversas vezes antes, porm nunca condenado.
Mandy assentiu.
	E o primeiro homem no cartel de drogas, um assassino.  Ergueu o queixo, seus olhos brilhando de orgulho.  Ns o condenamos, e ele ficar na priso por muito tempo.
	No entendo. O que isso tem a ver com a segurana de Kathryn?
Mandy segurou com mais fora a filha e inclinou-se para beij-la na testa.
	O jri foi convocado no final de certo dia. O juiz nos dispensou, disse-nos para irmos para casa e providenciarmos uma mala com roupas e artigos pessoais, porque, quando voltssemos, na manh seguinte, poderamos ter de ficar retidos ali.
Retidos... Foi por isso que ela no pde cuidar de Kathryn e distanciou-se por uma semana toda, concluiu Clint.
	No entendo o motivo de ter deixado Kathryn aqui. Voc no tem familiares? Uma bab? Arriscou demais, lar gando-a em uma varanda e indo embora.
	No tenho famlia e no sabia mais o que fazer! Quando eu estava deixando a Corte para ir para casa arrumar a mala e certificar-me de que a bab regular de Kathryn poderia cuidar dela, um homem aproximou-se de mim e me ameaou... e a Kathryn tambm.
Os olhos azuis ficaram arregalados de pavor. Kathryn sentiu as vibraes negativas irradiadas por Mandy.
	Calma...  Mandy passou o dedo pela testa franzida do beb.
Kathryn, de imediato, se acalmou e retomou o sono tranquilo. Mandy olhou para Clint.
	Ele sussurrou em meu ouvido, dizendo-me que eu tinha um lindo beb, mas que, se no votasse pela absolvio de Maxwell Boothe, ela no seria linda por muito tempo.
Fitou a criana em seus braos e, quando tornou a encarar Clint, estava quase chorando.
	Eu... no sabia o que fazer... a quem recorrer. Tambm no queria colocar Kathryn em risco. Tampouco aceitar a ameaa e absolver  bandido.
	Ento, pensou em Dave.
	Fui para casa e fiz a mala. No meio daquela noite,parti. Dirigi durante horas, para certificar-me de que no estava sendo seguida. A, pouco aps o alvorecer, vim at aqui e deixei minha filha. Foi a nica coisa em que pude pensar. Quis afast-la do perigo. Dave  muito imaturo e no est pronto para um compromisso ou uma famlia, mas eu sabia que cuidaria bem dela, porque tem um bom corao.
	No instante em que foi ameaada devia ter ido at o juiz ou o promotor.
Ela contemplou Clint, com cinismo.
	Fiquei com medo. Sei que, no passado, pessoas que testemunharam contra esse homem desapareceram.  Sei tambm que uma testemunha sob proteo, escondida em um lugar seguro, foi assassinada. No sabia em quem poderia confiar, por isso decidi contar apenas comigo mesma.
	Eu teria feito o mesmo.  Sherry virou-se para Clint, com um olhar desafiador.  Sobretudo se isso significasse a segurana de minha filha.
Clint quis protestar, dizendo a ambas que a ida s autoridades era o mais apropriado a fazer. Mas sabia que policiais podiam ser comprados, bem como juizes e promotores.
	Assim que demos o veredicto, contei tanto ao juiz quanto ao promotor que fora ameaada. Tambm dei-lhes uma descrio fsica do homem, e logo foi organizada uma caada para prend-lo.
	Deve ter sido o mesmo que tentou entrar aqui para pegar Kathryn  Clint falou, pensativo.
Mandy arregalou os olhos de novo, horrorizada.
	Algum tentou entrar aqui, e voc acha que estava atrs de minha filha?
	Sim, e creio que tenha sido o sujeito que ameaou voc. Por sorte, pois assim logo as autoridades o prendero, ajudadas pela descrio que fez.
Mandy assentiu, embora segurasse Kathryn com mais fora.
	Levarei Kathryn para um pequeno perodo de frias at que a situao se acalme.
	Faa isso.
	Quer dizer que vocs compreendem o motivo de eu ter deixado meu beb aqui? Estou livre para lev-la?
Clint olhou para a criana adormecida e, de propsito, no se virou para Sherry. Sabia que o corao dela estava partido e no suportaria contempl-la naquele momento. Assentiu para Mandy.
	Voc est livre para ir.
.    Mandy se levantou, cheia de gratido.
	Posso pagar por vocs terem cuidado dela?
	No!  Sherry falou com aspereza e levantou-se tambm.  Nosso amor no tem preo. Kathryn ganhou algumas coisas. Vou peg-las.
Girou nos calcanhares e saiu da sala de estar.
	Nem sei como agradecer. Jamais poderei retribuir a gentileza de mant-la aqui e cuidar dela.
	Faa com que continue em segurana e muito amada.  tudo o que lhe pedimos.  Clint ficou surpreso com o n na garganta, que tornava difcil a fala.
Mandy aquiesceu, o rosto refletindo a fora frrea e pro-tetora do amor de que apenas uma me era capaz.
Sherry retornou segurando no apenas a sacola com fraldas, mas uma grande sacola plstica tambm.
	Isto  o que voc deixou com ela. E estes so itens que Clint e eu compramos. Kathryn... adora mastigar o chocalho que parece um urso danando, e o cobertor rosa  seu favorito.
Sherry colocou a sacola aos ps de Mandy e virou-se.
	Por favor... com licena. Sinto muito  murmurou, a voz trmula por causa das lgrimas.
Virou-se e saiu correndo dali.
Clint ajudou Mandy a carregar tudo at o carro dela. Colocou o assento de Kathryn no banco traseiro do automvel e com delicadeza acomodou a menina e afivelou o cinto de segurana. Pousou os lbios contra a pele suave de seu pequenino rosto em um ltimo beijo.
Uma dor indizvel ressoava em seu peito enquanto Clint observava o carro afastando-se e desaparecendo nas sombras prpuras do anoitecer.
Finalmente o mistrio de Kathryn fora solucionado e ela partia de suas vidas.
Voltou para casa, sabendo que tinha de ajudar Sherry a juntar os pedaos do corao. Andou pela sala de estar, foi para o corredor e parou do lado de fora da porta fechada do quarto de hspedes.
Pensou em bater, mas sabia que ela pediria que fosse embora. No tinha dvida de que sua dor era to profunda quanto a angstia que Sherry sentiu quando o mdico lhe falou que no poderia ser me.
Sherry fora relutante em dividir sua dor na ocasio tambm. Foram precisos trs dias para deixar que Clint a abraasse. Para permitir que o ombro dele absorvesse suas lgrimas, e o corao ajudasse a carregar o fardo da dor.
Abriu a porta e encontrou-a deitada na cama, o quarto quase s escuras.
	Sherry?
	V embora, Clint. Quero ficar sozinha.  A voz estava abafada pelo travesseiro que ela abraava.
	No, querida, eu no irei embora.  Sentou-se na beirada da cama.  Tambm sou responsvel por sua dor. Acho que o mnimo que posso fazer  ajudar voc a super-la.
Sherry fez meno de protestar, mas Clint no lhe deu chance. Deitou-se a seu lado e tomou-a nos braos. Ela ficou rgida por um instante, ento relaxou.
Estava calada, mas seu corpo tremia com soluos to profundos que nem geravam som. Clint abraou-a bem forte, na esperana de absorver um bocado de sua dor e lhe transferir um pouco de conforto.
Momentos infindveis se passaram. O quarto estava silencioso exceto pelas tentativas ocasionais de Sherry de respirar. Clint passou as mos para cima e para baixo nas costas dela para tentar acalm-la.
	Lamento, Sherry. Jamais devia t-la envolvido nisso.
	No, no fale assim. Logo eu estarei bem.  Respirou fundo.  Eu amava Kathryn. Do fundo da alma.
Dessa vez, quando chorou, o som pungente ameaou fazer com que ele tambm desabasse.
Quando ela conseguiu se recompor, empurrou-o, distanciando-se o bastante para que pudesse fit-lo.
	Estou feliz por voc ter me envolvido. No me arrependo de ter testemunhado os sorrisos, as gargalhadas e caretas engraadas de Kathryn.
A luz de um poste prximo invadia o quarto, e a plida iluminao permitiu que Clint visse a curva suave dos lbios de Sherry formando um sorriso.
Di muito perd-la, Clint. Durante todo o tempo, eu soube que seria inevitvel, mas Kathryn deixou-me um precioso presente.
	Um presente?  Clint estava curioso, imaginando se ela fazia ideia do quo linda estava, embora com o rosto inchado de tanto chorar.
	Ela devolveu-me o dom de amar. Acreditei que havia perdido essa capacidade. Evitava ficar perto de crianas, mas Kathryn me mostrou que posso amar uma criana que no  minha.
O rosto dela brilhava com a beleza da descoberta, e, sem tomar uma deciso consciente, Clint a beijou.
Sherry no teve defesas contra o calor daqueles lbios e o desejo indestrutvel que para sempre permaneceriam em sua lembrana. Sensaes fortes e indomveis tiravam seu flego: desejo, necessidade, amor.
Sabia que devia conter o beijo, afastando-se antes que as sensaes levassem-na a um local de onde no conseguiria retroceder.
Mas por que conter-se?, uma voz interna sussurrou. Por que no deixar livre, naquela noite nica, todo o amor e desejo que sentia por Clint? Durante cinco longos anos no conseguiu deixar de desej-lo. Por que no ceder ao que tanto queria?
Se no podia ter uma vida toda a seu lado, ao menos acalentaria a recordao de uma noite de amor com o homem de seus sonhos.
Uma lembrana para acalentar e abraar, uma recordao de amor que aqueceria seu corao nos anos vindouros.
Ele gemeu baixinho quando a lngua de Sherry danou com a sua, e mos delicadas insinuaram-se por debaixo de sua camisa.
Sherry pressionou o corpo contra a extenso dos msculos fortes e sentiu o desejo nas linhas firmes do corpo de Clint. Como o queria!
O perfume masculino rodeava-a, o toque sofisticado da colnia mesclando-se ao cheiro natural do corpo de seu amado. A combinao de fragrncias era inebriante.
	Sherry... minha doce Sherry!  murmurou Clint em transe enquanto criava uma trilha de beijos por seu pescoo.
As mos dele moveram-se das costas para os quadris de Sherry, prosseguindo para cima at as palmas encaixarem-se nos seios, e os polegares provocarem os bicos.
Apesar do tecido da blusa e do suti, Sherry podia sentir o fogo provocado pelos hbeis dedos. E queria ser consumida pelo fogo da paixo. Desejava perder-se nos braos de seu amado.
Moveu os quadris de encontro aos dele, sentindo o modo como suas formas pretendiam se conectar.
Apenas uma vez, disse a si mesma. Teria apenas aquela vez com Clint, sua primeira experincia de fazer amor.
Puxou para cima a camisa dele, informando-lhe sem palavras que gostaria que ficasse nu. Com um movimento gracioso, Clint puxou a camisa por sobre a cabea e jogou-a no cho.
Sherry ps-se a explorar a pele nua, sentindo a firmeza do abdome reto e acariciando mais acima para descobrir os msculos maiores e mais fortes do peito. Deixou que os plos escuros se entrelaassem em seus dedos.
O quarto j no estava mais em silncio e sim repleto de gemidos e suspiros emitidos por entre beijos acalorados.
Sherry colou-se a ele, querendo que a tomasse e possusse por completo. Amava-o tanto que chegava a doer, uma dor que, bem sabia, carregaria pelo restante da vida.
	Sherry...  Clint emoldurou-lhe o rosto com as mos e disse:  Temos de parar.
	No... no temos. Quero que faa amor comigo. Por favor. Por favor, faa amor comigo!
Ele fechou os olhos e permaneceu imvel. Quando voltou a abri-los, o desejo que existia antes em seu olhar havia sumido.
	No, Sherry. Assim, no. No  como voc queria.
Ela lembrou-se de todas aquelas noites tanto tempo atrs.
Sempre. Sempre fora Clint quem tivera foras para cont-los antes que fizessem amor.
Seu desejo por ela nunca foi intenso o bastante para domin-lo.
Uma angstia avassaladora deixou-a arrasada. No teria nem mesmo a recordao de uma noite com Clint para sustent-la ao longo dos anos que viriam. No poderia nem mesmo ter isso.
Permaneceu imvel na cama enquanto ele rolava para longe e estendia a mo para acender a luminria ao lado da cama. A luz criou um ambiente dourado e ntimo.
Os cabelos dele estavam em desalinho, e as faces, enrubescidas. A luz suave enfatizava o peito nu e bronzeado, e Sherry nunca o vira to belo.
Fechou os olhos, no querendo v-lo, envergonhada por ter implorado que fizesse amor com ela e ter sido rejeitada.
	Sherry, case-se comigo.
Ela arregalou os olhos diante das palavras. Fitou-o, descrente, a pulsao disparada ao sabor da alegria e do desespero.
	O que disse, Clint?
	Case-se comigo, Sherry. Passe sua vida a meu lado. Eu te amo. Quero ser seu primeiro amante... e o ltimo.
Sherry ficou com os olhos cheios d'gua. Queria dizer "sim". Gostaria de passar o restante da vida com Clint, fazer amor com ele todas as noites de sua existncia. Mas sabia que jamais daria certo.
Por isso deixou a cama e buscou foras para distanciar-se dele.
	Acho que ns dois nos confundimos por causa da se mana que passamos juntos, fingindo formar uma famlia. Foi uma fantasia agradvel, mas apenas uma fantasia.
Aproximou-se do armrio, propositadamente evitando olhar para Clint. Sabia que, se o fitasse, sua resoluo poderia enfraquecer. Localizou a mala.
	O que est fazendo?
	Vou embora.  Por fim, virou-se para fit-lo.  Clint, ns dois sabemos que eu apenas estava aqui por Kathryn. Agora que ela foi embora  hora da minha partida. Preciso voltar  minha vida.
	Sherry!  Ele postou-se a seu lado.  No estou confuso. Nem iludido. Eu te amo. Desejo que se case comigo. Quero que seja minha esposa!
Os olhos dele buscavam os de Sherry. Ela passou a seu lado e abriu a mala sobre a cama.
	Droga, Sherry, oua-me!  Segurou-a pelos ombros e fez com que se virasse para encar-lo.  No ouviu o que eu falei?
	Ouvi sim, Clint.
Engoliu em seco e tentou conter as lgrimas. No ia chorar. No na frente dele. Mais tarde choraria todas as lgrimas que lhe restavam.
	Mas  tolice nossa at mesmo considerar casamento. Queremos coisas diferentes. Precisamos de coisas diferentes. 
Estendeu a mo e tocou-o no rosto com dedos trmulos. Os olhos de Clint, aqueles lindos olhos azuis, expressavam uma combinao de emoes: amor, raiva, mgoa... estava tudo ali.
	Clint, voc merece uma mulher que possa gerar seus filhos. No poderei fazer isso. Mas no terei uma vida sem crianas tambm.
Ela afastou a mo.
	Desde quando eu era pequenina, eu sonhava em ter um filho. Deixava de sair para encontros, preferindo ser bab nas noites de sbado. Escolhi lecionar porque amo crianas. Quando eu lhe disse que pretendia adotar uma, falei srio. E ambos sabemos como voc se sente a respeito.
Sherry afastou-se, foi at o armrio e pegou uma pilha de roupas. Bem como uma dose extra de fora.
	Ns acabaremos nos ressentindo um com o outro.
Com eficincia, retirava cada pea dos cabides e ajeitava na mala.
	Esta ltima semana foi uma bela fantasia, Clint.
	Pare de dizer isto! No foi apenas uma bela fantasia, mas o que quero ter at o fim de meus dias: ns dois juntos, partilhando cada momento, lado a lado.
O peito de Sherry protestava diante de tanta injustia. Por que tinham de se amar, embora fossem to errados um para o outro?
	Por favor, Clint, no dificulte ainda mais a situao. Apenas deixe-me partir.
Por um longo instante ficaram a se encarar. Ento, com um breve meneio de cabea, Clint virou-se e deixou o quarto, fechando a porta atrs de si.
Sherry desabou na beirada da cama. Inclinou-se e pegou a camisa de Clint do cho. Colocou-a de encontro ao rosto e inalou seu perfume, a angstia pressionando-lhe o peito.
Ele a amava. Vira isso nos olhos azuis, sentira no abrao, saboreara em cada beijo. Clint a amava... e ela tinha de afastar-se desse amor.
Jogou a camisa de novo no cho e retomou a tarefa de fazer a mala. Por quanto tempo doeria? Por quanto tempo o amor por Clint queimaria em seu corao? Quando a tristeza sumiria ou se tornaria mais suportvel?
De alguma maneira, o destino fez com que se unissem, passando a se amar. Mas no lhes deu os ingredientes da felicidade eterna.
No era justo. Mas Sherry aprendera h muito tempo atrs que a vida no era justa.
Levou poucos minutos para terminar de fazer a mala. Pegou-a e a bolsa e deixou o quarto.
Clint estava sentado no sof corri os ombros pendendo para a frente. Olhou para cima quando Sherry entrou na sala.
	Ento voc est partindo...
	E hora de ir. Temos de prosseguir com nossos caminhos. Eu lhe telefonarei  disse ela, reconhecendo que era uma mentira.
	Certo. Verei voc por a.
Clint nem se mexeu.
Sherry hesitou por um instante, querendo dizer algo, fazer alguma coisa para tornar a situao menos dolorosa. Mas sabia que nada adiantaria.
	Adeus, Clint.  E saiu para a escurido da noite.
Sherry acomodou a mala no banco traseiro do automvel e postou-se ao volante. Colocou a chave na ignio, mas no ligou o motor.
Em vez disso, permaneceu sentada, olhando para a casa onde, no decorrer da ltima semana, conhecera a felicidade.
Era uma residncia com o tamanho correto para uma famlia. Um dia Clint a preencheria com uma esposa e um ou dois bebs.
Deu a partida e acelerou. Quando observou o espelho retrovisor, um segundo mais tarde, a casa desaparecera atrs do vu de lgrimas.

CAPITULO IX

Os dois dias seguintes foram, para Sherry, uma curiosa mistura de tremenda alegria com desespero.
Tentou manter-se ocupada, a mente ativa. Procurou ignorar como seu apartamento parecia vazio. O silncio tornou-se seu inimigo, deixando que pensamentos dolorosos envolvendo Clint aflorassem.
Pela primeira vez em dias, passava o tempo trabalhando na preparao de currculos para enviar. Esperava voltar a lecionar como professora na Escola Elementar Armordale, mas decidiu apostar suas cartas tambm nas escolas distritais dos arredores.
Com o currculo completo e as cpias enviadas, tirou das caixas seus livros e seu material para lecionar. Ao desempacotar os itens que simbolizavam sua breve carreira de professora, lembrou-se de como gostava desse trabalho.
Localizou bilhetes e pequenos presentes dos alunos e lamentou a perda dos ltimos cinco anos. Adorava trabalhar com crianas, ver seus olhos se iluminando ao compreenderem um novo conceito.
Gostava muito de participar do cotidiano daquelas pessoas e ajud-las. Felizmente no era tarde demais para recomear.
Junto com sua nova abordagem positiva em relao ao trabalho veio a impotncia em lidar com o amor que sentia por Clint.
Amor que era como uma cano que para sempre permaneceria incgnita, um poema lrico que jamais seria escrito. No se passava um dia sequer sem que pensasse nele.
No o via h dez dias. Sequer conversaram.
Tirava o fone do gancho dzias de vezes ao dia apenas para ouvir a voz dele. Mas nunca completou quaisquer das ligaes.
Lamentava no apenas o fato de Clint no ter sido seu amante e nunca vir a ser seu marido, mas tambm o fato da amizade tambm ter sido sacrificada.
Aquele dia, entretanto, no era adequado para ela lidar com a tristeza. Era uma ocasio alegre. Naquele dia, tornar-se-ia madrinha de Kathryn Elaine Jenkins.
Mirou seu prprio reflexo no espelho da cmoda, ainda incapaz de acreditar que o destino permitira-lhe continuar fazendo parte da vida daquela menina que aprendera a amar.
Mandy Jenkins retornara a Armordale dois dias aps a noite em que levou Kathryn. Contara que o homem que a ameaou fora preso e confessara que tentou invadir a casa de Clint. Tendo-o seguro atrs das grades, Mandy decidira comear uma nova vida em Armordale.
Sem familiares nem amigos, convidara Sherry para ser a madrinha, dizendo que notara o amor dela por sua filha.
Ainda diante do espelho, Sherry sorriu decidindo que o terninho cor de pssego era uma escolha perfeita para o dia. Simples e chique, embora sensual. A seda salientava as curvas de seu corpo, sem parecer vulgar.
Olhou para o relgio de pulso. Pressentia que mais da metade da cidade estaria na igreja naquela manh para ver a pequena Kathryn ser batizada.
Na mesma semana em que Mandy e a filha aclamaram Armordale como lar, a cidade abraou a jovem me e sua filha sorridente.
Sim, era um dia glorioso, com apenas uma nuvem acinzentada no horizonte. Mandy convidara Clint para ser padrinho de Kathryn.
Naquele dia, durante a cerimnia na igreja, Clint e Sherry estariam sentados lado a lado. Ento, no decorrer do ba-tismo, levantariam-se para jurar amor e apoio  afilhada.
De alguma maneira Sherry teria de sobreviver  viso das feies atraentes e ao aroma do perfume familiar.
Consultou de novo o relgio de pulso e constatou que era hora de partir. Ela ao mesmo tempo antecipava e temia os acontecimentos daquele dia.
O estacionamento da igreja j estava quase cheio. Sherry encontrou um espao vazio e estacionou. Enquanto caminhava para o templo, acenava a amigos e vizinhos.
Sherry deixara de frequent-la porque ficara revoltada com o destino e com Deus por sua esterilidade.
Ao acomodar-se no banco da frente, onde Mandy instrura-a a sentar-se, Sherry reviveu o ambiente familiar e seus cheiros caractersticos.
Velas queimavam no altar, e o arranjo floral enviava sua doce fragrncia at os bancos mais prximos.
Murmrios sussurrados das pessoas cumprimentando umas s outras mesclavam-se ao som do rgo tocando um hino conhecido.
Sherry sentiu paz e reuniu foras suficientes para lidar com tudo... at mesmo com a presena de Clint.
Sorriu deliciada quando Mandy, segurando Kathryn com um vestido branco, sentou-se a seu lado. A menina estendeu os braos gordinhos para Sherry. Divertida, a futura madrinha riu e tomou a menina, pousando-a no colo.
	Nem sei como lhe agradecer por ter concordado, Sherry. Descansarei mais sossegada todas as noites sabendo que, se algo acontecer comigo, Kathryn ter padrinhos que a amaro e cuidaro dela.
Sherry pegou a mo de Mandy e a apertou de leve.
	Nada acontecer a voc em muitos, muitos anos. E obrigada por dividir o amor e a vida de sua filha comigo.
Sorriu para a jovem, que no decorrer da ltima semana tornara-se uma amiga.
	Voc est bem?  Mandy perguntou, preocupada.
Em um momento de fraqueza, Sherry confessara  jovem seu amor por Clint.
	Espero que tudo isso no seja... desconfortvel demais para voc.
Sherry sorriu.
No se preocupe, Mandy. Estou bem, e nada estragar este dia. Certo, beb?  Beijou Kathryn no rosto e sorriu quando a menina juntou as mozinhas.
Sherry e Mandy olharam para cima quando Clint apareceu diante das duas. A fora que Sherry tinha tanta certeza de possuir simplesmente desapareceu.
Ele parecia to alto e atraente. Usava terno azul-marinho e camisa branca impecvel.
	Sherry... Mandy.
Cumprimentou as duas com um aceno de cabea e abaixou-se diante de Kathryn.
	Ol para voc, srta. Raio de Sol.
Kathryn inclinou-se adiante, e, com a aquiescncia de Sherry, Clint tirou a garotinha de seus braos. Sussurrou algo ao ouvido da menina, fazendo-a rir. Sherry tratava de memorizar cada pequeno detalhe.
Embora belo como ele s, Clint parecia cansado. Algumas rugas emolduravam seus olhos e as laterais da boca.
A msica comeou a ser tocada em tom mais alto, sinalizando o incio da cerimnia. Clint estendeu Kathryn  me e sentou-se ao lado de Sherry. Ela tentava manter os pensamentos focados no sermo, mas era impossvel, com Clint sentado to perto. Podia sentir o calor de seu corpo. E o perfume delicioso deixava-a zonza.
Aps a cerimnia ela ficou em p ao lado de Clint, e juntos foram reconhecidos como os padrinhos de Kathryn Elaine Jenkins. Os membros da congregao deram vivas e todos comearam a deixar a igreja a caminho do fresco ar de primavera.
Como de costume, ningum se apressava. Pessoas cumprimentavam umas s outras, trocando alguns comentrios e apreciando o esprito comunitrio.
Sherry ficou ao lado de Clint, Mandy e Kathryn aceitando os votos de felicidade de amigos e vizinhos.
Ento ela e Clint trocaram olhares de surpresa quando Walt Clary apareceu para cumpriment-los, tendo Betty Wade apoiada em seu brao.
	Betty... Walt! Enfim vocs contiveram suas tendncias homicidas em relao ao outro e conseguiram vir juntos  igreja  Clint comentou. Walt fez uma careta.
	Fizemos uma trgua, xerife. Betty tentar adestrar Rover.
Inclinou-se para perto de Clint e deu uma piscadela conspiratria.
Acho que ela est tentando me treinar tambm.
	No se preocupe, Walt.  Clint deu um tapinha nas costas do homem.  Ouvi dizer que  impossvel ensinar truques novos a um cachorro velho.
	Isso  o que voc pensa.  Betty piscou tambm.  Vamos, Walt, voc vai me levar para almoar no caf.
Sherry ficou vendo, divertida, os dois se afastando de braos dados.
Juro que quase vi Walt sorrir!  disse ela.
Sem nenhum aviso, Clint segurou-a pelo brao para afast-la dos demais.
	Sherry, precisamos conversar.  importante.
Ela se soltou. O simples toque era uma tortura.
	No temos nada a falar, Clint.
	Por favor, vamos dar uma volta de carro. Apenas ceda-me alguns minutos de seu tempo.
A expresso de Clint parecia vulnervel.
	Sherry, por favor, eu preciso lhe contar algumas coisas. Eu preciso explicar...
Sherry sabia que devia dizer "no". No era prudente acompanh-lo a lugar algum. Uma conversa seria loucura. Mas Clint conseguira intrig-la. E antes que percebesse o que fazia, ela j aquiescia. Em minutos, viam-se no automvel de Clint.
	Para onde estamos indo?
Para o lago.
Sherry sentiu-se ameaada. Lago... o local onde passaram tantas horas felizes. O mesmssimo lugar onde Clint lhe props casamento tanto tempo atrs.
Fechou os olhos, desejando estar em qualquer lugar, menos ali. Sabia que nada a esperava alm de mais dor.
Clint dirigia devagar, tentando reunir os pensamentos desconexos antes de chegarem ao lago. Em poucos minutos pretendia ter a discusso mais dolorosa de sua vida.
Preparava-se para explorar a dor que guardara nos recessos mais profundos de sua mente. Teria de lidar com o passado que continha uma angstia profunda.
Mas esperava que valesse a pena. Pagaria com a prpria dor se isso significasse que ele e Sherry poderiam de alguma maneira ter um futuro juntos.
	Clint, no acho que seja uma boa ideia. Por que temos de ir at o lago? Podamos ter conversado na igreja.
	No. Precisa ser l. E onde tudo comeou.  onde eu lhe disse pela primeira vez que te amava. Parece correto que tambm terminemos tudo ali.
	Mas ns terminamos na noite em que eu deixei sua casa.
	Nada disso. Confie em mim. Tenho algo importante a dizer... coisas que voc tem o direito de saber.
Caram em silncio, e Clint sentia a tenso dela preenchendo o interior do carro. Fitou-a de soslaio, e seu corao expandiu de amor.
Como estava linda. O terninho cor de pssego acentuava o verde dos olhos. Os cabelos loiros brilhavam, um tanto assanhados pelo vento, dando-lhe uma aparncia muito sensual.
Segurou o volante com fora. No fazia ideia de como ela reagiria quando lhe contasse tudo. Sherry nunca gostou de pessoas que mentiam.
Era possvel que ouvisse o que ele tinha a dizer e o expulsasse para sempre de sua vida. Ou, talvez, revelado o segredo, os dois pudessem construir um futuro juntos, afinal.
Clint apostava na ltima alternativa. No queria passar mais um dia sequer sem Sherry em sua vida.
Estacionou no lado sul do lago, no exato lugar onde sempre paravam por uma hora ou duas para uma conversa sossegada e um pouco de namoro.
Desligou o motor e desceu o vidro da janela. Sherry fez o mesmo, permitindo que o carro fosse arejado pela brisa fresca.
Apesar de tanto ter ponderado, Clint ainda no sabia direito por onde comear. Soltou o cinto de segurana, deitou um pouco o banco e virou-se para fit-la. Venerou-a com o olhar, esperando e rezando para que Sherry tambm o amasse.
	Os ltimos dez dias tm sido horrveis para mim, Sherry. Eu nunca soube que minha casa podia ser to silenciosa e sufocante.
	Entendo o que quer dizer. Meu apartamento est do mesmo jeito.  Ela entrelaou as mos no colo e olhou firme para a frente.  Mas apenas porque ns nos habituamos a estar juntos e a ter Kathryn.
Clint fez que no.
	Concordo que a ausncia de Kathryn faz diferena, mas senti saudade de voc. Senti falta de acordar todas as manhs e saber que seria a primeira pessoa adulta que eu veria. Lamentei no mais partilhar minha primeira xcara de caf em sua companhia.  Pegou-lhe a mo, obrigando-a a enfrentar seu olhar.  Nos ltimos dez dias senti falta de voc ser a ltima pessoa que eu via e com quem con
versava antes de dormir.
	Era esse o assunto to importante assim?  Sherry indagou, afastando a mo.
	No, no .
Clint passou a mo pelos cabelos. Por um instante, olhou janela afora, para a plcida superfcie do lago, buscando as palavras certas.
	Sherry, meus pais no morreram.
Ela arregalou os olhos e encarou-o.
	Como assim? Claro que morreram! Voc me falou que faleceram em um acidente de carro antes de sua mudana para Armordale.
	Meus pais verdadeiros morreram em um acidente quando eu tinha dois anos. As pessoas que na verdade me criaram esto vivas e morando em Kansas City.
Sherry ficou pasma.
	Voc foi adotado?!
	Sim. Tinha trs anos quando Robert e Mary Graham me adotaram. Todos disseram que tive sorte por ter sido escolhido por um casal to bom.
Tentou afugentar a amargura da voz, mas no conseguiu.
Robert possui alguns bancos, e Mary dedica-se a obras de caridade. Sim, tive muita sorte por ser adotado por um casal to proeminente.
Reminiscncias de sua infncia afloraram. Recordaes que ele vinha passando toda a vida adulta tentando esquecer.
Abriu a porta, precisando de mais ar fresco do que as janelas podiam proporcionar.
	Vamos dar uma caminhada.
Comearam a andar em torno da margem, onde fora criado um caminho pavimentado.
	Clint, no compreendo. Por que mentiu? Por que no me falou que era adotado?
O sol nos ombros dele era quente, mas o vento gelado de recordaes indesejadas ainda mais forte.
	Porque, quando deixei Kansas City, quis esquecer tudo o que dizia respeito quela gente.
	Foi to ruim assim?
	No se passou um dia sem que eles fizessem com que eu me sentisse inadequado. Sempre me lembravam de que no tinham de me amar porque eu no era seu filho de sangue. Quando me comportava mal, era porque no era na verdade deles. Quando era bom, devia-se  influncia que tiveram em me criar e que foi capaz de superar minha maldade inata.
	Clint!  Ela tomou-lhe a mo.
Clint fechou os olhos por um instante e deixou que o calor dos dedos de Sherry abrandasse a infelicidade da criana que ele fora. Ento, resolveu fit-la.
	Em todos os dias de minha existncia, desde ento, venho detestando o fato de ser adotado, o modo como fizeram com que me sentisse. Eu nunca era bom o bastante. Cresci sabendo que nada do que viesse a fazer ou dizer faria com que meus pais adotivos me amassem, porque eu no tinha sangue deles.
	E por isso que nunca quis adotar uma criana  Sherry concluiu.  Temia repetir com ela o que foi feito com voc.
Ele sorriu, amargurado.
	No apenas no queria adotar como tambm nunca considerei ser pai. So criaturas to frgeis e se magoam com facilidade.
Deixaram de caminhar, e ele ficou  frente de Sherry, precisando lhe fazer uma pergunta que acalentava no corao havia cinco anos:
	Agora eu preciso compreender algo seu.
	O que ?
	Quando descobriu que no poderia gerar, por que rompeu nosso noivado? Por que eu no bastava para voc?
Ela o encarou, com os olhos arregalados. Meneou a cabea, sem se desviar.
	Clint, no rompi o compromisso porque voc no era suficiente. Fiz isso porque eu no era!
Sherry voltou a caminhar, como se estivesse processando os fatos e precisasse de alguma atividade fsica.
	Quando soube que no poderia ser me, algo dentro de mim morreu. Perdi a habilidade de amar. Voc merecia mais do que poderia lhe dar, e achei que o melhor a fazer seria deix-lo livre.
Clint fez com que ela parasse de caminhar.
	No foi o melhor, Sherry. Voc partiu meu corao, roubou meu sonho de morarmos juntos e de eu am-la para sempre.
Sherry sorriu com uma expresso triste que no conseguiu iluminar seu rosto.
	E agora estamos de volta ao mesmo lugar, com os mesmos obstculos entre ns.  Ela estendeu a mo e tocou-lhe a face. O simples gesto transmitia seu sentimento.
 S agora compreendo o motivo de voc nunca ter desejado sequer considerar uma adoo.
	Hoje, estando a seu lado, jurando meu amor por Kathryn, algo surpreendente aconteceu. Percebi que eu amava aquela menina quando achava que era minha filha e acreditei que meu amor por ela mudaria aps a descoberta de que no era seu pai. Mas quando olhei para aquele rostinho doce, lembrei-me de todos os momentos que partilhamos naquela semana e constatei que ainda a amo, do fundo da alma. No importa que no tenha vindo de mim.
	O que est dizendo?
	Que te amo e que, se quiser adotar uma criana, ento eu gostaria de ser o pai dela... Desejo ser o pai que nunca tive.  Clint riu.  Pelo menos sei tudo o que um pai no deve fazer.
	Mas eu o observei com Kathryn e vi que voc tambm sabe como ser um pai maravilhoso.
Clint puxou-a para si.
	Case-se comigo, Sherry. Constituiremos uma famlia e realizaremos nossos sonhos. Pode haver algo mais fantstico?
Os olhos de Sherry se encheram de lgrimas, mas Clint percebeu, pela luz cintilando nas duas ris verdes, que eram de felicidade.
	Fala srio?
Clint gargalhou e abraou-a.
	Nunca falei to srio, querida. E agora? Vai se casar comigo e resgatar-nos dessa melancolia?
	Sim! Pode apostar!  exclamou e ficou na ponta dos ps.
Suas bocas, finalmente, se encontraram para um beijo que transmitia a promessa de realidades compartilhadas, do calor da paixo liberada e das maravilhas do amor eterno.

CAPITULO X

	Querida, voc est linda!  a me de Sherry, Nadine, exclamou, deliciada.
Sherry usava um deslumbrante vestido de noiva. A me beijou-a no rosto e entrelaou os dedos.
	Nem consigo expressar como estou feliz, minha filha. Voc, enfim, encontrou a felicidade com o homem que ama. Espero que hoje seja o primeiro dia de uma nova vida maravilhosa para vocs.
Sherry acarinhou as mos da me.
	E eu nem sei como agradecer o quanto trabalhou para organizar to rpido este casamento.
Fazia apenas trs semanas desde que Sherry e Clint estiveram  beira do lago e ela aceitara o pedido de casamento. Nadine riu.
	Este seu homem  impaciente. Se fosse conforme ele queria, o casamento teria acontecido duas semanas atrs.
Soltou as mos da filha e ocupou-se em ajeitar o vu.
Sherry ficou imvel, muito paciente, embora seu corao batesse em disparada. Em apenas alguns minutos tornaria-se esposa de Clint. Estava com os nervos  flor da pele.
Sentia-se como se mergulhando no sonho mais maravilhoso que j teve e nunca, nunca mais, gostaria de acordar.
O primeiro dia de uma nova vida maravilhosa. Uma vida amando Clint. A solido e infelicidade de cinco anos dissolveram-se no beijo  beira do lago, quando ela aceitou casar-se com o homem que amava.
As ltimas trs semanas foram atribuladas. Alm dos preparativos para a cerimnia de casamento houve decises a serem tomadas acerca da moblia do apartamento de Sherry.
Transferiram as coisas que ela queria manter para a casa de Clint, criando um conjunto de moblia e utenslios de cozinha que expressava o gosto de ambos. Sherry sara do apartamento e fora morar com a me durante os dias restantes at o casamento.
E naquela noite...
Sherry estremeceu ao pensar no que tinha pela frente. Sua noite de npcias, aquela em que teria sua primeira experincia na cama e com o homem que amava.
Houve uma batida  porta, e a irm de Sherry entrou.
 Sherry, voc est estonteante! Pediram que eu viesse lhe dizer que j est na hora.
A noiva, sua irm e a me deixaram a ante-sala da igreja, local que lhes serviu como quarto de vestir.
Sherry estava tensa. Em poucas horas estaria a ss com Clint.
E se no fosse boa na arte do amor? Talvez devessem ter se unido sexualmente antes do casamento para terem certeza de que tambm combinavam nesse sentido.
Ela no tinha experincia alguma. E se Clint ficasse decepcionado?
Apertou com fora o buque de flores amarelas, esperando que no o derrubasse antes de conseguir dizer o "sim".
Ocupou seu lugar nos fundos da igreja, notando que todos os bancos estavam ocupados. Parecia que toda a cidade de Armordale reunira-se para ver seu xerife se casar.
E se ela fosse frgida?
E se no fosse boa em fazer amor, e Clint decidisse que cometera um erro terrvel?
Ela morreria. Tinha certeza.
O rgo da igreja tocou as notas familiares da Marcha Nupcial, e lgrimas de medo queimavam nos olhos de Sherry. Comeou a caminhar para o altar, seu olhar atado ao de Clint.
Ele estava em p do outro lado da nave, alto e atraente em seu smoking preto. Conforme se aproximava, Sherry pde ver melhor seus olhos, e estavam cheios de amor.
Todo o medo que sentiu at ento no pde mais ser sustentado.
Por fim, alcanou seu noivo e sentiu o calor da mo de Clint derretendo o gelo da sua. Ele sorriu, comunicando-lhe que tudo daria certo.
A cerimonia ocorreu em uma nvoa de emoo. Proferiram os votos, trocaram alianas e um beijo selou o futuro.
Logo os convidados deixavam a igreja e seguiam para o centro comunitrio, local da recepo.
O interior do salo fora decorado com cores alegres, e uma mesa longa continha ponche e um bolo de casamento de trs andares.
A banda tocava baixinho, e havia mais comida em outra mesa grande.
Durante os trinta minutos seguintes Clint e Sherry ficaram lado a lado na porta frontal, aceitando os votos de felicidade de amigos e vizinhos.
	Eu j falei que amo voc?  Clint indagou, quando viram-se a ss por um momento.
	Acho que sim, mas fale de novo. Voc sabe como eu adoro ouvir.
Clint puxou-a para si.
	Eu te amo.  E beijou-a.
Um beijo cheio de paixo e desejo pela noite que se aproximava.
	Ei!  Andy exclamou, interrompendo-os.  No vamos comear a lua-de-me cedo demais. Venham, todos os esperam para a primeira dana.
Clint sorriu para Sherry.
	Sra. Graham, voc me d a honra desta contradana?
Ela ficou arrepiada ao som de seu novo nome.
	Sem dvida, sr. Graham.
E ento, viu-se nos braos de Clint, movendo-se ao sabor de uma cano romntica enquanto os convidados batiam palmas. Em minutos outros casais giravam na pista tambm, e Sherry e Clint j no eram mais o centro das atenes.
	Est to linda que me deixa sem flego  exclamou, as palavras combinando com a chama em seu olhar.
Durante a hora seguinte, danaram, deram um pedao de bolo um ao outro e cumpriram todas as tradies das recepes de casamento.
Sherry conversava com Mandy e acariciava Kathryn, quando Clint aproximou-se.
	Vamos sair daqui  sussurrou a seu ouvido.
Sherry sentiu o calor de um rubor aquecendo-lhe o rosto, e Mandy achou graa.
	V, Sherry. A noiva e o noivo nunca ficam por muito tempo na recepo.
Clint pegou Sherry pela mo e conduziu-a para a porta.
	No devamos nos despedir de todos e agradecer pela presena, querido?
	No, devemos sair com discrio e em silncio, deixando que a festa continue sem nossa presena.
Empurrou-a de leve para a porta e depois em direo ao carro. Ambos pararam sobressaltados e gargalharam ao verem latas amarradas ao escapamento.
A inscrio "recm-casados" estava no vidro traseiro e nos laterais.
Andy tentava amarrar um grande lao branco na antena. Sorriu para os noivos.
	Os dois pombinhos esto tentando fugir daqui?
	E voc, bagunando meu carro?  Clint sorria para seu ajudante.
Andy deu um toque final no lao e assentiu.
	Sim, confesso que fiz isso. Olhe, no se preocupe com nada durante a lua-de-mel.  O policial respirou fundo, vaidoso.  Tomarei conta desta cidade durante os prximos trs dias, sem problema algum.
Clint deu um tapinha nas costas do colega de trabalho e amigo.
	Eu no tiraria trs dias de folga se no tivesse total confiana em voc.
Andy sorriu diante das palavras do chefe.
Clint ajudou Sherry a acomodar-se no banco de passageiro e, dando adeus a Andy, sentou-se ao volante. Quando ligou o carro, ela foi outra vez assaltada pelo nervosismo.
Para onde vamos?
Shercy fez essa pergunta dezenas de vezes na semana anterior. Clint dissera que a levaria a um lugar especial na noite de npcias, mas no falou qual era. Tratava-se de um segredo.
Ele mais uma vez nada revelou. Em vez disso, tocou-a no pulso. Sherry olhou para a prpria mo, observando o dedo anular adornado com uma aliana. Os brilhantes cintilavam.
	Est feliz, querida?
	Parece um sonho.
Sherry hesitou por um instante e perguntou.
	Voc est muito decepcionado?
Ela insistira para que convidassem os pais adotivos para a cerimnia de casamento, os quais no deram sinais de terem recebido o convite nem apareceram na cerimnia.
	Decepcionado? Oh, refere-se a Robert e Mary? No, no estou decepcionado por no terem aparecido. Nem surpreso.
Ele fez um carinho em sua mo e soltou-a.
	Talvez tenham sido os melhores pais que souberam ser. Acho que, enfim, consigo perdo-los, mas isso no significa que os queira em minha vida.
Sherry notou que havia paz na voz de seu marido. Soube ento que no decorrer das ltimas trs semanas a ferida no peito de Clint cicatrizara.
Ficou surpresa quando pararam diante da casa dele. Clint desligou o motor, soltou o cinto de segurana e virou-se para ela.
	Espero que no tenha imaginado um hotel muito requintado para nossa noite de npcias. Eu queria que nossa primeira vez fosse aqui... em minha cama, onde tantas vezes sonhei em fazer amor com voc.
As lgrimas nublaram a viso de Sherry. Seu amor por aquele homem deixava-a sem flego. Sentia-se completa, feliz.
	Eu amo voc, xerife.
Os olhos de Clint ardiam de desejo.
	Vamos entrar, e deixe que eu lhe mostre o quanto eu a amo.
Vinte minutos mais tarde, Sherry estava diante do espelho do banheiro, contemplando seu reflexo e lutando contra o receio de que Clint a considerasse uma amante inadequada.
Usava camisola de seda branca que mal cobria sua nudez. As faces estavam enrubescidas, e os olhos pareciam gigantescos.
Chegara a hora.
Suspirou para tentar acalmar o nervosismo. Abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
Ele estava ali, j deitado em um leito coberto com ptalas de rosa. Uma garrafa de champanhe gelado em um recipiente de prata cheio de gelo fora colocada no criado-mudo e perto de duas taas de cristal. O aposento tinha cheiro de flores e de Clint, uma combinao que a deixava com os joelhos bambos.
	Est encantadora...
Sherry no se mexeu. Estava ao batente, hesitante quanto ao que era esperado dela. Clint deu um tapinha a seu lado.
	Venha, amor. Vamos fazer um brinde a nosso futuro.
Sherry sabia que o gesto dele tinha a inteno de ajud-la a relaxar. Sorriu, grata, e aproximou-se da cama. Ao esgueirar-se sob as cobertas, ficou a observ-lo servindo uma taa de champanhe para cada um.
	Champanhe e ptalas de rosas... O que mais uma garota poderia desejar?  ela indagou, sorrindo com nervosismo.
	Querida, isto  apenas o comeo.
Estendeu-lhe uma taa com o lquido borbulhante e com delicadeza tocou uma taa na outra.
	A ns. Para que amemos um ao outro e permaneamos como almas gmeas para sempre.
	Para sempre.
Tomaram um longo gole da bebida gelada.
Ento, com os olhos cintilando, ele tirou a taa das mos de Sherry e colocou as duas no criado-mudo.
Ela prendeu a respirao quando foi abraada. Clint estava nu sob as cobertas e deixava-a sentir o calor e a masculinidade de seu corpo como nunca antes.
Seu corao, corpo e alma derreteram quando os lbios do marido clamaram pelos seus em um beijo apaixonado. Mas a voracidade do carinho assustou-a e, quando Clint deu-lhe um momento para respirar, ela estava com os olhos rasos d'gua.
	Sherry, querida... qual o problema?
	Estou assustada, confesso. E se eu fizer algo errado?
E se voc no gostar de fazer amor comigo?
	Querida, isso no vai acontecer.  Beijou-a no pescoo.  Faremos amor muitssimo bem, e no haver como eu no adorar cada momento. Confie em mim. Prometo que no vou machuc-la e que jamais deixarei de am-la. Nada do que fizer far com que eu deixe de amar voc.
Sherry viu tamanha sinceridade nos olhos azuis que o medo que dominou-a durante as ltimas trs semanas desapareceu.
Com timidez ela passou as mos pelo peito largo do marido, inclinou-se adiante e deixou que seus lbios seguissem a trilha criada pelos dedos.
Sentiu que Clint prendia o flego, e no instante seguinte o desejo explodia entre os dois.
Beijaram-se com avidez. Ele afastou as cobertas e fez com que a camisola subisse pelo corpo de Sherry. Ento passou a acariciar cada centmetro de pele exposta com lentido e sensualidade.
Clint seduziu-a, instruindo-a a conhecer os mistrios de seu prprio corpo e do corpo dele. Era um processo de amor e aprendizado, no qual um memorizava o que o outro apreciava, no qual carinhos causavam suspiros e gemidos de prazer.
Quando Clint a possuiu, Sherry estava ansiosa e pronta, e no houve dor, apenas prazer. Um prazer maior e mais doce do que ela j pde imaginar.
Aps fazerem amor, Sherry ficou deitada nos braos do marido, esperando que seus corpos esfriassem e a respirao voltasse ao normal.
	No posso acreditar que tenhamos esperado cinco anos para ficar juntos, querido!
Clint passou a mo pela pele nua da esposa, deixando-a arrepiada.
	Estou feliz por termos esperado.
	E mesmo?  indagou, com espanto.
Clint sorriu.
	No estou feliz pela longa espera de cinco anos, mas por termos aguardado at nossa noite de npcias. Sinto-me honrado por ter sido seu primeiro homem e estou determinado a ser seu ltimo e nico amante.
	Tambm estou muito, muito feliz!
Sherry voltou a aconchegar-se ao peito quente e cheiroso, sabendo que nunca se cansaria de estar naqueles braos e de ser beijada por Clint.
	Agora ns devemos dormir?
	Apenas se voc estiver cansada.  Passou a mo pela lateral da curva bem marcada, pousando-a entre os seios majestosos.  Est?
Sherry prendeu o flego quando a mo de Clint cobriu um seio.
	Nem um pouco...
	Otimo! Aps esperar cinco longos anos por voc, no gostaria de encerrar esta noite agora.
Beijou-a com todo o amor de que era capaz, e, para espanto de Sherry, que se julgara saciada, aquilo a fez singrar de novo os mares da paixo.
	Hum! Lembre-me de comprar o maior e mais incrvel presente de aniversrio do mundo para Kathryn.
	Est bem querido. Mas por que voc pensou nisso agora?
Clint sorriu.
	Porque, sem a ajuda daquela garota preciosa, dois tolos poderiam ter ficado separados por mais cinco anos para s ento perceberem que sempre pertenceram um ao outro.

EPLOGO

	Sherry?  Clint chamou ao entrar na casa.
Colocou o grande carto de saudaes na mesinha ao lado do sof.
	Na cozinha!  ela respondeu.
Clint a encontrou verificando algo assando no forno. Aproximou-se por trs e enlaou-a pela cintura.
	Pare!  Sherry protestou, rindo, e virou-se para o marido.
Clint no a soltou.
	Chegou mais cedo, querido.
	 um dia especial. Descobri que xerifes podem sair mais cedo em seu primeiro aniversrio de casamento.
Franziu a testa ao ver o assado no forno. - Pensei que a levaria para jantar fora.
	E eu achei que um jantar ntimo  luz de velas seria melhor.  Os olhos dela cintilaram.
	Sua feiticeira! Sei o que tem em mente... Pretende me embriagar e seduzir at que eu perca os sentidos.
	Acertou!
Clint beijou-a nos lbios, surpreso por aps um ano de unio seu desejo e amor por Sherry terem apenas aumentado.
Sherry retribuiu o beijo com ardor, mergulhando as mos nos cabelos do marido e puxando-o para si como se no conseguisse aproximar-se o bastante.
Clint ficou excitado. Deliciara-se em descobrir que, ao fazer amor com Sherry naquela primeira noite, libertara a sensualidade daquela mulher ardente, doce e pura. E lisonjeava-o saber que a paixo dela fora provocada por ele e destinava-se apenas a ele.
	Agora j basta, xerife. Deixe-me arrumar a mesa.
Clint observou-a estendendo a bela toalha de linho sobre o tampo de carvalho. Enquanto Sherry pegava os melhores pratos do armrio, ele sorriu com a satisfao de um homem que amava e era correspondido.
	No tem alunos esta noite, no  mesmo?
	Claro que sim! Programei meia dzia de sesses para que no pudssemos passar nosso aniversrio juntos.  Ela riu diante da expresso de pnico do marido.  Lgico que no darei aulas hoje!
Sherry no conseguira emprego como professora. No foram abertas novas vagas nos distritos prximos. Por isso, lecionava em casa para crianas que tinham dificuldade de aprendizado ou estudantes que precisavam de uma pequena ajuda extra e de um pouco de coragem.
Clint consultou o relgio de pulso e levantou-se. Pegou o enorme envelope que deixara na sala.
	Isto  para voc.
Os olhos de Sherry se iluminaram de satisfao.
	Um carto de aniversrio!
Abriu o envelope e tirou o carto florido. Clint a observou lendo e viu como franzia a testa, confusa.
	Querido, a mensagem  linda, mas voc percebeu que  um carto de dia das mes e no de aniversrio?
	 mesmo?  Clint fingiu surpresa ao pegar o carto e ler a mensagem.  Bem, veja s! Acho que significa que preciso fazer com que voc se torne me hoje.
Sherry ficou imvel. A esperana fazia suas pupilas cintilarem.
Clint sorriu e deixou o carto de lado para poder tomar a esposa nos braos.
	Nancy telefonou hoje.
	Ela tem um beb para ns?  A voz de Sherry tremia de emoo.
Clint assentiu e observou os olhos verdes ficando rasos d'gua.
	Um menino. Devemos encontr-la no escritrio em quinze minutos.
	Quinze minutos?!  Sherry soltou-se dele, passou a mo pelos cabelos e pela roupa.  Mas no posso ir assim.
Preciso me trocar, me maquiar...
	Querida, ele tem quatro semanas de vida! No vai reparar em seus cabelos ou na roupa que voc estiver usando. Venha, vamos buscar nosso filho.
Quinze minutos mais tarde, estacionavam diante do escritrio de advocacia de Nancy Coltron.
Haviam entrado em contato com Nancy logo aps o casamento, explicando  mulher inteligente e charmosa que gostariam de adotar um beb.
Clint tomou a mo de Sherry, e os dois entraram. Nancy estava sentada na sala de espera, e o corao de Clint pulou no peito ao no ver sinal algum de um beb.
	Ah, duas de minhas pessoas favoritas!  Nancy falou, cumprimentando-os.  Por favor, sentem-se.
Fez um gesto para as duas cadeiras a seu lado.
	Aconteceu alguma coisa, Nancy? H algo errado?  Clint sentia a presso da mo de Sherry na sua.
"Por favor no a decepcione!", ele rezou em silncio.
	Tudo est corretssimo. H apenas alguns pontos que precisamos discutir antes que eu os apresente a seu novo filho.
Clint e Sherry permaneceram sentados, de mos dadas. Ele observou o rosto da esposa, sentiu sua felicidade e soube que aquela era a atitude mais correta que j tomara.
	Jamais me senti to feliz quanto a uma adoo antes. Serei bem objetiva. Os pais no so jovens confusos, e sim um casal que no queria filhos. O pequeno Scott foi um erro.
	Scott...  Sherry disse o nome com reverncia.  Scott Graham.
Olhou para Clint, com imensa alegria.
	O som  lindo, no acha?
Ele assentiu, contagiado por sua animao.
	Os pais j assinaram o papel desistindo de seus direitos, por isso podemos fazer uma petio imediata  Corte e dar incio ao processo de adoo. Nancy sorriu.
	Parabns! No tenho dvida de que os trs pertencem um ao outro.  A moa levantou-se.  Voltarei logo.
Nancy desapareceu dentro de sua sala e retornou um momento mais tarde carregando um pequeno fardo azul.
Sherry e Clint encontraram-na no meio do caminho. Ele observou Sherry pegando o garoto adormecido nos braos de Nancy.
	Oh, Clint! Ele  belssimo! Veja s como  pequenino!
Sherry tremia e chorava de alegria.
Clint olhou para o beb. Os cabelos eram escuros, os clios longos, e as bochechas rechonchudas. A pequena boca parecia tentar lanar um beijo. Uma emoo indizvel invadiu-o.
	Segure-o, Clint.
	No, querida, eu...
O protesto de Clint foi calado quando ela lhe estendeu a criana.
O beb se mexeu e abriu um olho, depois outro. Por um momento, pareceu encarar Clint, como se decidindo se era ou no adequado para ser seu pai.
Scott, ento, bocejou e fechou os olhinhos mais uma vez. Pelo visto, Clint fora aprovado.
	Ei, tenho um presente para vocs!  Nancy deu-lhes um assento para crianas para ser adaptado ao carro.  E agora, vo! Saiam daqui e levem seu filho. Entrarei em contato a respeito da papelada mais tarde.
Clint estendeu Scott de volta para Sherry, a viso nublada pelo pranto. Beijou a esposa e a testa do filho. Pegou o assento para carro e segurou a porta aberta para que a mulher e a criana passassem.
Estavam completos. Formavam uma famlia!
	Vamos, vamos para casa, Sherry.
	Parece que passaremos nosso aniversrio de casamento comprando artigos para beb  Sherry disse, acomodada no banco de trs.
	No posso pensar em nada que eu gostaria mais de fazer.  Clint piscou para ela pelo retrovisor. Ou melhor, acho que sei de algo que seria mais interessante...
Sherry deu-lhe um tapinha no brao e riu. Um riso que continha tanta felicidade que aqueceu o corao de Clint.
	Obrigada, querido. Todos os meus sonhos esto se realizando, e tudo por sua causa.
	E o meu se realizou no dia em que voc se tornou minha mulher. O pequeno Scott  apenas a cereja de meu bolo.
Clint parou o veculo e virou-se para Sherry.
	Mas quero que voc compreenda algo  falou em tom provocante.  Nosso segundo aniversrio de casamento no significar gmeos.
Ela riu e se inclinou para um beijo, que representava amor, compromisso e um futuro cheio de alegria.

FIM
